Estava, no outro dia, e como faço de vez em quando, a pensar no que será o futuro da minha geração, comparando-o com o que foi a vida adulta das gerações passadas. Por vezes verifico os valores atuais de imobiliário. As conclusões que tiro são já bem sabidas e frequentemente discutidas: é hoje seriamente complicado uma pessoa jovem conseguir viver fora da casa dos seus pais a não ser que tenha três empregos, seja portador de algum dinheiro dado por gerações anteriores ou peça um empréstimo ao banco, o qual terá de pagar o resto da vida.
Estas questões estão já assentes na minha consciência há vários anos, porque, antes de mais, no sistema capitalista onde vivemos, o valor de mercadoria existe para além do seu valor de uso. Isto é evidente (ainda que seja necessário constatar estas evidências de modo a não se tornarem invisíveis ou naturais). O que me fascinou, no entanto, foi um comentário que ouvi de passagem, que, por algum motivo, terá sobressaído na cacofonia de um autocarro cheio às sete da manhã. Uma senhora, com cerca de sessenta anos, diz o seguinte: "Hoje em dia as pessoas já não trabalham o que trabalhavam antes, e mesmo assim, só trabalham porque querem o dinheiro ao fim do mês".
Esta afirmação não me chocou, é relativamente comum ouvir frases parecidas com estas no dia-a-dia. O que me deixou mais perplexa foi o facto de ter sido dita num sítio rodeado de pessoas que, presumo eu, iam a caminho do trabalho. Depois pensei no facto de estarmos num autocarro, que é notório por transportar particularmente gente de classe económica inferior. Posto isto, de onde poderia vir esta maneira de pensar? Será que esta senhora era patroa numa empresa, e via os seus empregados desinteressados? Será que observa a qualidade dos produtos a tornar-se cada vez pior, e, vendo uma crise de empatia generalizada, culpa os trabalhadores?
A verdade é que, independentemente do nosso papel neste mundo, estamos todos nós sujeitos a tomar o olhar da classe dominante sobre a realidade que nos envolve. A ideia do trabalho e da procura do capital enquanto forma de obter grande mérito e prestígio terá sido plantada pelo sistema capitalista de forma a manter os trabalhadores subjugados felizmente, porque "todos nós podemos ser milionários, se trabalharmos um pouco mais". Nas atuais sociedades ocidentais, o nosso Deus é a economia, correspondendo à força maior a quem pedimos piedade para determinar o rumo das nossas vidas. E, se a economia for Deus, então as empresas são os padres a quem nós nos confessamos e descartamos a nossa humanidade para nos tornarmos em virtuosos autómatos.
A indústria cultural é um dos meios principais de propagação desta ideologia, falsa consciência, como é enunciado por Marx. Quando observamos a monumentalidade de uma casa "de classe média" num filme ou num anúncio, é impossível desassociar os valores que estão ali associados com a mesma. Não descartamos sapatos desgastados apenas por uma questão de utilização, descartamo-los também porque achamos que "iremos parecer pobres", como se a pobreza fosse uma condição vergonhosa, quase semelhante à delinquência ou ao crime. A publicidade culpa-nos de sermos desatualizados, de nos faltar alguma coisa, de sermos quem somos. Para além disso, tornamo-nos todos no mesmo indivíduo, indivíduo este que é obrigatoriamente o mais desejável de uma hierarquia. A ideologia, segundo Fiske, é facilmente tornada monocultura e hegemónica quando é condicionada a servir as estruturas de poder da nossa sociedade.
As imagens na contemporaneidade transportam em si de um poder imenso, pelo que é mais do que nunca necessário ter o olhar crítico perante as mesmas, sendo a pergunta "porque que é que isto me quer apelar?" a chave que nos leva a diversos caminhos que devemos ponderar.