segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O olhar como tecnologia de poder

 

Entramos num espaço público, abrimos uma aplicação, ligamos um ecrã e sabemos, mesmo sem pensar muito nisso, que estamos a ser vistos. Ajustamos o comportamento, a postura, a forma como falamos ou nos mostramos. Não porque alguém nos mande fazê-lo, mas porque a visibilidade passou a ser uma condição normal da vida quotidiana. Ver e ser visto tornou-se parte da experiência de existir.

É difícil não pensar, aqui, na forma como Michel Foucault descreve o Panóptico, uma arquitetura onde o poder não precisa de se afirmar constantemente, porque a simples possibilidade de vigilância já é suficiente para disciplinar. O mais perturbador não é a presença do olhar, mas a incerteza sobre quando ele acontece. Aos poucos, esse olhar deixa de estar fora e passa a instalar-se dentro de nós.

Quando transportamos esta lógica para a cultura visual contemporânea, percebemos que o Panóptico não ficou preso a um modelo arquitetónico. Ele reaparece nas câmaras de vigilância, nas redes sociais e nos ecrãs que transportamos no bolso. Estamos continuamente a produzir imagens de nós próprios, conscientes de que podem ser vistas, avaliadas e partilhadas. A visibilidade transforma-se num critério de aceitação, pertença e até valor social.

É neste ponto que Modos de Ver, de John Berger, se torna especialmente relevante. Berger lembra-nos que as imagens não são neutras, elas ensinam-nos a ver. Cada enquadramento é uma escolha e cada imagem carrega uma forma particular de organizar o mundo. Olhar não é apenas perceber, é interpretar segundo códigos culturais que aprendemos sem nos apercebermos.

Juntando estas perspetivas, torna-se claro que o olhar não é apenas uma experiência individual. É uma prática social, política e cultural. Através das imagens, aprendemos o que merece atenção, o que deve ser normalizado e o que fica à margem. Não vemos simplesmente a realidade, participamos na sua construção ao aceitarmos determinados modos de ver como naturais.

Talvez a questão não seja como escapar à visibilidade, mas como lidar com ela de forma consciente. Num mundo saturado de imagens, talvez o gesto mais crítico seja perguntar quem está a olhar, a partir de onde e com que interesses. Porque se o olhar pode funcionar como forma de controlo, também pode abrir espaço para dúvida, distanciamento e reflexão. E talvez seja precisamente aí, nesse intervalo entre ver e questionar, que reside alguma possibilidade de escolha.