sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

The Godfather: Harald Szeemann

I can't help but notice a resistance to the idea of a curator in the shows held by independent spaces or galleries. I've come across artists who think that the only things a curator does are write texts and select artworks to organize in a space, a task that the artist is capable of doing. It's true that I see this more in the case of personal shows than in group ones; there seems to be a certain softening about the person handling all these minutiae, which artists could easily delegate. Then, I feel as though this reluctance also stems from a certain level of pride: If I know better than anyone how I want the final product to look, why should they tell me how to arrange the works and which to expose? However, it is intriguing to be open to the work done by these artistic workers when a curator with a solid track record visits your workshop and announces that he wants to check out what you are working on, documents what you're doing, and then creates an exhibition that break the trade's silence. 

When he opened the exhibition "Live In Your Head. When Attitudes Become Form" in Bern Kunsthalle, in 1969, Harald Szeemann—for I am talking about him—conceived a show that would alter how the art world viewed the curator's profession. Szeemann pioneered then the “invitation exhibition” where instead of picking some artworks and displaying them in a space, he chose the artists (as a whole) for an acknowledged institution of the visual art world. In a five-day production and set-up phase, the Kunsthalle Bern was transformed into a production hall in which artists themselves were responsible for the quality of their work. The exhibition featured 69 daring young artists, some of whom have afterwards obtained worldly prestige, whose creation might very well appear whether in physical, material form or alternatively in envisioned, conceptual, or in any other immaterial manifestations. Richard Serra arrived to spray the museum's corner with molten lead. Another corner was covered with fat by Joseph Beuys. One square meter of the gallery wall was removed by Lawrence Weiner. Michael Heizer broke up the sidewalk with a boulder. 

Anyways, after the big fuss made by the press and media, a group of local artists was formed to supervise Szeemann's activity. After a while they rejected his request to work with Joseph Beuys on a solo exhibition. It was the moment when he resigned from Kunsthalle Bern and established the "Agency for Intellectual Guest Labour", launched a highly lucrative career as an independent curator of contemporary art, and became what we call today a freelance curator.

He was a major figure in contemporary art, he pulled a few strings and changed the curator's framework. 

Oh and he also received an important sponsorisation from Philip Morris Europe to make an exhibition as he wants after establishing himself as a freelance curator, and got the invitation to curate the fifth edition of documenta. 

Harald Szeemann (seated) on the last night of Documenta 5: Questioning Reality–Image Worlds Today at Museum Fridericianum, 1972, Photo: Balthasar Burkhard, The Getty Research Institute


quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Numa conversa entre colegas

 Numa conversa entre colegas de universidade, mencionei o facto de ser muçulmana shia ismaili, um de muitos outros ramos que existem no islão. Calculei que como vivo num país maioritariamente cristão, não existisse muito conhecimento relativamente ao islão e ao que é ser muçulmana, especificamente de um ramo menos conhecido. Por isso passei a explicar os pontos fundamentais, especialmente os que me diferenciam como muçulmana shia ismaili dos sunis, o maior e mais conhecido ramo dentro do islão.

            Após a minha explicação, fui deparada com algumas questões, uma das quais feita por um colega que sendo muçulmano suni, me fez a seguinte questão:

“Se és muçulmana, porque é que não usas o hijab?”.

            O hijab (em árabe حجاب) tem como origem da palavra, os significados “cobertura” “ocultar olhares” e é descrito no quran em alguns versos, tais como:

 

“And say to the believing women that they should lower their gaze and guard their modesty; that they should not display their beauty and ornaments except what must ordinarily appear thereof; that they should draw their veils over their bosoms and not display their beauty except to their husbands, their fathers… and that they should not strike their feet in order to draw attention to their hidden ornaments. And O you Believers, turn you all together towards Allah, that you may attain Bliss.” (Quran 24:31).

 

“O Prophet! Tell your wives and your daughters and the women of the believers to draw their cloaks (veils) all over their bodies (i.e. screen themselves completely except the eyes or one eye to see the way). That will be better, that they should be known (as free respectable women) so as not to be annoyed. And Allah is Ever Oft-Forgiving, Most Merciful.” [al-Ahzab 33:59]

 

Através destes versos, conseguimos perceber melhor o seu significado. O hijab constitui assim um elemento de vestuário que tem como finalidade ser usado pelas raparigas e mulheres que permite a modéstia, a privacidade, ou seja, neste caso só os homens com uma relação familiar com a mulher é que poderão vê la sem o hijab e que por isso, a sua beleza deve ser resguardada para todos os restantes que não façam parte desta categoria. O hijab permite nos atribuir a uma mulher o respeito e faz com que, por não ser possível ver o cabelo, um pouco da testa (dependendo também do tipo de véu que se usa: burka, niqab, chador, al-amira, hijab, shayla) se tornem menos “atraentes” do ponto de vista masculino e por isso, com menores probabilidades de serem molestadas.

Para mim como shia ismaili, existe dentro deste tópico um grande afastamento de pensamento. É de relevante importância mencionar que o uso deste não é obrigatório, apenas recomendado, o que muitas vezes não é dito e esquecido dentro dos países muçulmanos onde existe uma restrição do pensamento livre e a escolha. O uso do hijab trata-se fundamentalmente de uma escolha que inclui estritamente o sujeito feminino e Deus/Allah.

No entanto, há algo bastante evidente retirando todas as questões de fé e crença na explicação do uso do hijab para a mulher.

A primeira questão a colocar é: “Porque é que só as mulheres muçulmanas sunitas usam o hijab e os homens não?”

            Para responder a esta questão, irei relacionar o segundo episódio de “Ways of Seeing”, de John Berger de 1972 e uma capa da revista Seventeen exposta no livro de John Fiske “Introdução ao estudo da comunicação” de 1993.

 

Começando por mencionar a revista, deparamos-nos com fotos de várias mulheres, em que no canto esquerdo em cima e mesmo na foto abaixo estão duas mulheres a sorrir e a fazerem expressões que mostram uma certa felicidade e diversão, abaixo no mesmo lado está uma mulher séria e do seu lado direito, uma outra mulher, cujo rosto não conseguimos ver. Em todas as fotos, as mulheres estão apenas a mostrar a sua expressão, a transpô-la para o espectador, até mesmo naquela em que não conseguimos ver o rosto.

As mulheres estão dispostas para serem vistas, vistas exatamente pela aparência que levam consigo para a câmara, não estão a ser avaliadas por outra competência senão pela sua beleza. Mesmo que através da fotografia seja mais complicado ir para além da estética, a revista em si, não foge disso. Poderia ter sido colocada a foto de uma mulher com um breve título sobre o facto de ter ganho um prémio em investigação em qualquer uma das áreas científicas ou apresentar se um livro escrito por uma mulher, entre outros exemplos. No entanto, a revista exclui essas possibilidades, quando olhamos para o todo e para o particular dos elementos que estão nela.

A mulher constitui um objeto, tanto para os homens, como para as mulheres que compram a revista. A mulher que compra a revista tem dois pontos de vista, que podem ocorrer simultaneamente, o primeiro poderia ser a comparação entre ela e a mulher que observa, pensando sobretudo num ponto de vista negativo sobre o que lhe falta em si e que existe na pessoa que vê. O segundo, será criticar a mulher que vê, por exatamente olhar para a mulher como um homem e não como igual entre ambas.

A própria mulher adapta a perspetiva do homem, como se naquele momento deixasse de ser o que é e não soubesse o que é ser se mulher, o que é em si mesma. Passando a criticar alguém que lhe é como igual, como um objeto puramente apreciativo. É também neste sentido que John Berger descreve o que acontece na percepção dos homens para as mulheres. As mulheres são em si um objeto para elas mesmas e para os homens, pois mesmo quando pegam no espelho, olham para si como um homem olharia para elas. O homem que no fundo está como mestre desta manipulação, nunca é olhado com este olhar e faz com que todos os homens e mesmo as mulheres, pensem que a mulher se olha no espelho por vaidade, quando a tornaram no próprio centro do olhar.

Voltando assim à minha pergunta inicial, conseguimos perceber que a razão pela qual a mulher usa o hijab é devido ao homem e ao facto de estar constantemente a ser observada e ser alvo de abusos.

O homem visto na genesis é o agente de Deus e a mulher a subordinada ao homem. Tornando a partir daí a concepção cultural do papel da mulher na sociedade e da impossibilidade do afastamento do seu pecado inicial e por isso tendo consequências futuras irremediáveis

A própria mulher quando é subjugada ao hijab, pode sofrer uma questão de identidade pessoal, em comparação com outras mulheres, especialmente com a maioria que não o usa. Mas as suas percepções de si deixam de ser irrelevantes no mundo onde o olhar principal é um olhar masculino coletivo. Daí a necessidade do islão de criar um elemento que as pudesse proteger desse mesmo olhar, do olhar de um Adão coletivo que não fez um primeiro erro, mas que deu seguimento aos restantes.

Olhando num ponto de vista completamente oposto, poderei dizer que o próprio hijab “chama a atenção” num mundo que se tornou estandardizado pelos costumes europeus. E por isso, levando consigo para as mulheres que o usam, mais um aspecto de crítica por outras mulheres e homens do que proteção e modéstia, devido a uma não compreensão do significado do mesmo.

Um outro ponto principal de relevância a ser mencionado é o castigo das mulheres quando decidem não usar o hijab. É vista uma atitude plenamente severa, mas que é encarada muitas vezes pelos homens como "justiceiro de Deus na Terra” por punir o que não está no seu direito.

Posso concluir assim, que um objeto será sempre motivo de olhares, por mais escolhas que sejam ou não feitas. De certo modo, não cabe a um objeto decidir se pode ser observado, pois a partir do momento em que é criado passa a poder sê-lo. Assim, creio que por mais tentativas que as mulheres possam ter em tentar mudar a percepção do olhar, estas foram marcadas por uma história que conta o início dos tempos e mesmo que tal história não seja aceite por muitos, nunca deixa de ser contada, pelo menos da forma como é feita.

Numa aula de filosofia

 

Numa aula de filosofia, após a visualização de um filme chamado "Matrix", procedemos à análise do mesmo, maioritariamente relacionada com os tópicos dados em aula.

No entanto, depois de ter revisto o filme apercebi-me de aspetos que não foram debatidos previamente, enquadrados na problemática da cultura visual, pretendendo abordá-los assim na minha análise.

Este filme de ficção científica baseia-se essencialmente num mundo gerado por uma simulação neural-interativa, que é controlada pelas máquinas. Tudo isto se deve ao avanço tecnológico, especialmente na área da inteligência artificial, dando à tecnologia poder suficiente para dominar e controlar a espécie humana.

Com a destruição ambiental e poluição, a energia solar que era usada como fonte primária para o funcionamento destas máquinas deixa de ser possível. Assim, a tecnologia apodera-se do ser humano e passa a usá-lo como fonte de energia, já que este produz mais eletricidade do que uma pilha de 120V. Criando assim um sistema de cultivo humano, pois estes já não nascem, são meramente produzidos.

Esta ideia de ser humano como produto e escravo, está ligada à ideia de Karl Marx, mencionada no O Trabalho Alienado”. Pois nesta simulação, em que todos são produzidos, são cegamente levados a crer que o que vivem é de facto real e por isso alimentam essa realidade e criam produtos nela, valorizando o mundo das coisas e por isso automaticamente desvalorizando-se a si próprios.

É neste mesmo contexto que ambos o produto que o trabalhador cria e o trabalhador são mercadorias. Pois à medida que o ser humano contribui para o sistema, torna-se não só parte dele, como nele próprio, passando a ser o sistema e contribuindo para que este tenha continuidade em si.

É neste sistema de escravidão e controlo visto no filme, que as máquinas capacitam o próprio ser humano de existir, que por sua vez existe primeiro como trabalhador que produz outras máquinas e só depois como sujeito físico.

O filme baseia-se numa personagem principal, o Neo, que vai ao longo do mesmo descobrindo o que é a matrix. Esta é descrita várias vezes como:

 

“The matrix is everywhere, all around us”

 

“You can see it when you look at your window or when you turn on your television, you can feel it when you go to work, when you go to church, when you pay your taxes. It is the world that has been pulled over your eyes to blind you from the truth”

 

“The matrix is a computer-generated dream world built to keep us under control in order to change the human being into a battery.” 

         

Esta oposição entre a “matrix” (simulação/mundo dos sonhos) e o mundo real demonstra o paralelismo entre a cultura e a natureza.

          O ser humano é portanto um ser simbólico, pois vive de simbolismos num mundo de sensações, estando a sua existência associada a uma posição social, um status, poder econômico… vivendo muito consciente da sua realidade sociocultural.

Com uma linguagem natural criada a partir de um código com o qual se comunica, o ser humano difere totalmente dos outros seres vivos. Carregando a sua capacidade simbólica como um fardo, pois essa é precisamente a razão da sua infelicidade quotidiana, traduzindo-se apenas num ser que sofre e trabalha.

          É exatamente essa a razão que leva o Neo a escolher a pílula vermelha, quando lhe é dada a escolha de saber a verdade pelo Morpheus. É a necessidade de abandonar o mundo simbólico e a ilusão que ele oferece, escolhendo assim aproximar-se da natureza, da sua verdadeira origem. Pois antes de sermos cultura, ou seja, parte da matrix, somos natureza, o ser humano sem o simbolismo, antes da idade do espelho. A cultura afasta-nos do que somos realmente, criando uma relação separada entre o ser humano simbólico e o ser natural.

          Contudo, uma vez inseridos no simbólico é impossível renunciá-lo, e o mesmo acontece com o Neo quando descobre saber a verdade e afastar-se da ilusão. Mesmo tentando voltar para o seu “eu da natureza”, nunca vai poder apagar tudo o que sabe e tudo o que viveu. O simbólico permanece sempre, tal como a separação entre o homem e o mundo, alienado de si mesmo e dos outros homens.

          É assim neste contexto que pode ser relacionado o conceito de ideologia descrito por Karl Marx, uma projeção simbólica que nos é dada como verdadeira imposta pela classe dominante numa sociedade, que serve para manter a sua posição de dominância. Pois tal como é visto ao longo do filme, a maioria das pessoas não desconfia nem questiona a verdade e a pequena porção de pessoas que o faz e demonstra resistência, é alvo de aniquilação por parte dos agentes que são sistemas informáticos.

Glass onion: A knife out mystery e idolatria dos ricos

O novo filme da Netflix, dirigido e realizado por Rian Johnson, constitui uma sequela do  ”knives out”.  Embora não tão bom como o primeiro, o filme que constitui mais um capítulo nas histórias crime protagonizadas pelo detective Benoit Blanc (Daniel Craig no seu melhor), está bem estruturado e aborda de forma subversiva vários temas actuais e característicos da cultura moderna. tais como a idolatria dos ricos e influencers e a cultura dos social media.O filme não se cinge apenas ao mistério por desvendar, mas contém várias mensagens e sátiras à sociedade contemporânea e a maneira que poe os ricos num pedestal. A história está escrita a volta Miles Bron(Edward Norton) um milionário que fez a sua fortuna na empresa Alpha e o seu grupo de amigos “disruptors” constituídos por uma concorrente politica Claire Debella (Kathryn Hahn), supermodelo que se torna em designer Birdie Jay (Kate Hudson), YouTuber e ativistas de direitos de homem Duke Cody (Dave Bautista), cientista Lionel Toussaint (Leslie Odom Jr) e Cassandra Brand (Janelle Monáe) que teve a ideia original de criar a Alpha mas teve a companhia roubada por Miles Brown que são convidados para  uma festa de “murder-mystery”.Na qual tem que adivinhar quem matou Miles Brown(Spoilers!!!!!)durante esta festa vai haver um homicídio e descobre-se quem matou Cassandra Brand que estava morta desde o inico do filme e era a sua irmã gémea que estava no lugar dela para descobrir o assassino de Cassandra. Benoit Blanc durante o inicio do filme tira a ideia de que o assassino era Miles Bron porque de acordo com ele era preciso de ser demasiado estupido para matar uma pessoa que se tinha acabado de levar a tribunal num caso que tinha chamado muita atenção e que como ele era um génio milionário não acreditava que ele era capaz de tal ato mas durante o filme vê-se o Miles Brown a usar varias palavras inventadas ou além do seu vocabulário, também tenta mostrar a sua coleção de arte para mostrar que tem bom gosto e é uma pessoa culta mas pendura a pintura “207 ”de Rokdos ao contrario mostrando que todo não passa de pretensiosismo. Também vemos como é que o seu circulo de amigos ”Disruptors” funciona mostrando que todos só chegarão aonde estão através de favores exploração de mão de obra barata e falsos testemunhos.

O filme apesar de ter ideias interessentes acaba por se um pouco superficial com todos os seus personagens e com tema que sinto não foi explorado com suficiente profundidade e sendo a própria metáfora do filme aplicada a si mesmo

“I like the Glass Onion as a metaphor.

An object that seems densely layered, but in reality the center is in plain sight.”

reddit. (2022). r/MovieDetails - In Glass Onion (2022), Rothko’s painting ‘Number 207’ is on display in Miles Bron’s living room. However, the painting is intentionally displayed upside down to illustrate the character’s superficial appreciation for art. [online] Available at: https://www.reddit.com/r/MovieDetails/comments/zva2e8/in_glass_onion_2022_rothkos_painting_number_207/ [Accessed 10 Jan. 2023].

 


Evidências modernas do poder ideológico do homem na representação feminina



A pouco tempo uma amiga sugeriu assistirmos ao filme Jennifer’s Body (2009), assim que ela citou o título da obra, recordei-me instantaneamente da sua propaganda, e rapidamente rejeitei a proposta. Tive contacto com esse filme desde criança, pois se tratava de um dos cartazes que havia na montra da locadora que costumava frequentar. Lembro-me que, mesmo tendo 9 anos, assumi que o conteúdo do filme provavelmente era sexual. Enquanto crescia, o cartaz continuou lá, mas às vezes era mudado de sítio, apesar disso sempre encontrava-me a olhar para ele, e sempre pelo mesmo motivo, a imagem sexuada da atriz Megan Fox (1986)

    A minha forte resposta trouxe confusão à minha amiga, que já tinha assistido o filme e em seguida relatou-me que ele não expõe o assunto que o seu cartaz insinuava. Muito convencimento não foi necessário, então naquela mesma noite terminamos de vê-lo. A experiência trouxe um enorme esclarecimento para muitos pensamentos que tive durante meu desenvolvimento, não só do filme, mas também da minha própria imagem, e da representação visual das mulheres. Os mesmos pensamentos que surgiram vindos da repulsa e do contacto contínuo com o cartaz, foram as temáticas criticadas neste filme. Gostava de ter assistido o filme quando adolescente, mas infelizmente o público que se sente atraído pela imagem veiculada, é o objeto da crítica da diretora, e a audiência que o filme pretendia alcançar frequentemente rejeita o chamado da campanha.

Consequentemente, a crítica e público reprovaram o longa-metragem, que foi escrito pela roteirista Brook Maurio (1978), mais conhecida com o pseudônimo Diablo Cody, que no ano anterior ganhou o Oscar de melhor roteiro original com Juno (2007).  Muita dessa rejeição foi associada à escolha de representação da imagem da feminina pela equipa de marketing, que apelou ao público masculino, que ao assistir viu-se sendo alvo de uma crítica.

Como o episódio 2 da série Ways of Seeing (BBC, 1972) evidencia, a representação da imagem feminina é, em grande parte, feita para ser observada pelo público masculno. Essa dominância da cultura visual, também é um reflexo da cultura ter surgido da tentativa do homem de ”...escapar do destino da espécie...”, como Simone de Beauvoir (1908) aponta no seu livro O Segundo Sexo, Volume I (1949). Portando, enquanto o individuo do sexo masculino se afasta da natureza animal, a mulher foi limitada a utilidade do seu corpo, ou seja é restringida ao seu papel natural. Dessa maneira, o homem cria os valores humanos a partir do seu ponto de vista, e durante a evolução da espécie humana, a mulher foi sujeita a reconhecer-se com valores sociais masculinos, restrita a enxergar a si própria pelos os olhos do sexo oposto, e condicionada desde de cedo a viver, com o que acredito ser a primeira, “falsa consciência” provocada pela ideologia dominante. 

Entretanto, o pensamento da mulher, cada vez mais se separa da ideologia masculina, com a ajuda de tentativas de expor a condição de submissão da mulher, como Simone de Beauvoir (1908) em seus livros e Diablo Cody na sua comédia de terror. De forma trágica, o uso de uma representação visual mais masculina da imagem feminina, trouxe ao público masculino o posto de expectante central. Logo, a repercussão inicial do filme foi limitada, contudo atualmente o que ofuscou-o aprofundou seu impacto, não só  é um exemplo próprio do que pretendia manifestar, mas também demonstra que a objetificação da mulher, e do seu corpo, não se limita à produtos visuais masculinos. 




terça-feira, 10 de janeiro de 2023

E se tudo estivesse dentro de um bagel



 O filme Everything Everywhere All At Once(2022), expõe os efeitos da internet sobre a percepção individual e coletiva da realidade e como o estímulo constante de informações afeta a forma como percebemos o mundo. É uma narrativa fantasiosa que não expõe uma representação realista do mundo, porém instiga no espectador um sentimento análogo ao incessante estímulo que recebemos da internet.

  As personagens principais do filme possuem a capacidade de descarregar em si mesmas conhecimentos e habilidades que são úteis no momento em que estão - similar aos filmes da série do Matrix(1999). Isso pode ser visto como uma analogia à forma como muitos de nós nos expressamos online, livremente trocando de personalidade e suposto conhecimento empírico dentro do que demandamos conveniente.

  Em uma cena, uma das personagens principais(Jubu Tupaki) afirma ter tentado colocar tudo dentro de um “bagel” (este sendo uma alegoria para a internet). Para ela, tudo que existe no mundo está inserido neste, e já não tem sentido, porém ela conhece apenas os reflexos destas informações, e para compreender por completo algum conceito, alguém deve estar inserido numa cultura. Isto evidencia a analogia sobre a percepção da realidade no espaço virtual. Um indivíduo online observa outra realidade como a revista matcha, observa as tribos Africanas durante as “aventuras” de Bichon. Ele irá interpretar erroneamente os eventos e contextos de outras pessoas em outros lugares do mundo correlacionando com sua própria experiência empírica. Assim, muitos afirmam perceber muitas culturas e ideologias, porém verdadeiramente conhecê-las requer tê-las vivenciado. A internet apenas tem o poder de nos mostrar uma espécie de fotografia de ideias, mas a ideologia que realmente podemos absorver é a que surge do nosso contexto.

O culto da personalidade

Narciso, Caravaggio

Os últimos 20 anos viram enormes mudanças na maneira como comunicamos - mudanças conduzidas principalmente pelos avanços tecnológicos.

A mudança que se deu com a introdução dos smartphones foi paradigmal. O modo como consumimos cultura, e como esta se tornou maioritariamente visual deve-se quase inteiramente a esta invenção. A fácil acessibilidade para comunicar permite que o façamos a qualquer momento, em qualquer lugar. 


A internet, enquanto ferramenta, tem potencial que continua a desvendar-se: a facilidade em comunicar ajuda as melhores e as priores causas, e a democratização da partilha teve consequências boas e más a vários níveis. Mas, a introdução das redes sociais na sociedade, e essa facilidade de partilha de (des)informação, foi, na minha opinião, um dos eventos mais transformativos dos tempos modernos.

A possibilidade de partilha de informação instantaneamente fez com que a cultura se tornasse primariamente visual, pois chega a nós através de ecrãs, e muito mais descartável, por conta desse ritmo acelerado com que é consumida. 

Sendo da natureza humana procurar sempre o próximo pico de dopamina, a busca do prazer e do conforto, ter uma ferramenta capaz de trazer infinitas fontes disso mesmo é... viciante.  

Algo que a maior parte das redes sociais têm em comum é que o usuário, para poder participar, cria uma reprodução ou versão digital de si mesmo. A criação de uma personagem pela mão de quem julga sê-la mudou profundamente a natureza social humana e a cultura visual.


A obsessão do ser humano consigo mesmo, a vaidade e futilidade, têm vindo a ser temas de ambos artistas e cientistas ao longo dos tempos, e o constante jogo de espelhos que jogamos ao interagirmos através destas redes sociais está a exacerbar esses traços de carácter. Mas não afeta somente uma mudança no caráter ou modos como interagimos, afeta também as nossas crenças, modos de ver o mundo, e consequentemente, os modos como agimos no mundo. As nossas crenças são a força motora da ação, e uma perspetiva narcisista do mundo cria um mundo muito hostil. 

A ideologia do consumo material advém de uma cultura predominantemente visual, durante um período do capitalismo industrial avançado, onde as discrepâncias na distribuição da riqueza são maiores do que nunca. 

Os valores desta sociedade são geralmente superficiais, tendo como preocupação principal a "ótica" de todos os momentos, mais do que o que eles são ou como se fazem sentir. A conquista material é um símbolo de estatuto, e sendo o cuidado da imagem e as aparências algo ao qual atribuímos valor e poder, esta busca incessante por novas metas leva ao consumo desnecessário, que por sua vez alimenta maiores problemas socioeconómicos e ambientais.


Estaremos tão viciados com a imagem de um espelho que podemos curar e decorar à nossa maneira ideal que comprometemos os nossos valores? Será que o nível de alienação é tal que deixamos de ter escolha? 


Pode não haver consumo ético dentro do capitalismo, mas a compaixão ainda é possível. Talvez esteja aí o início da verdadeira revolução.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Falso Ativismo

 Atualmente, estamos a viver uma onda de pseudoativismo praticado por todos, desde pessoas comuns, até estratégias de marketing de “grandes” marcas. Chegámos a um momento de preocupação instantânea e sensacionalista, especialmente visível nas redes sociais, onde todos expressão a sua preocupação e um “alto” conhecimento pelo tema mainstream do momento, seja uma causa ambientalista, social, política. É a era dos “expects“ das redes sociais que partilham ou repartilham posts referentes ao conhecimento cheios de orgulho por mostrarem que se importam e que estão a acompanhar os “problemas” mundiais, mas verdade não só a maioria dos seus seguidores já partilhou esse mesma informação,  para depois o imediato post ser a foto de uma banalidade diária como a fotografia do prato extremamente gormet que estão prestes a saborear ao jantar.

Este resultado surge em praticamente em todos os acontecimentos em que haja um mínimo de sensacionalismo e foco através dos medias, no entanto o principal aqui são as causas ativistas. Estas redes e comunidades que têm vindo a lutar por certos direitos há já décadas e têm mantido um presença constante, e é bom assistir a um aumento da visibilidade destas, através de diversas campanhas em vários formatos  que as promovem, e o aumento de cúmplices  que pretendem colaborar ativamente para as ajudar. No entanto, o que é revoltante, são os ativistas superficiais. Os ativistas do click instantâneo da publicação do instagram ou do Facebook, o ativista que só conheceu o problema à razoavelmente 5 minutos, e no entanto passa como um devotante apoiante e de longa data da causa.

Claro que este ativismo superficial aumenta a visibilidade da causa e pode dar a conhecê-la a quem não sabia da sua existência. O problema é a intenção por detrás dessa ação, e o que acontece após esta ação. Acontece que esta ocorrência regular, por uma grande parte generalidade das pessoas, incluindo muitos ditos “influencers”, serve apenas para manter uma imagem, e não realmente contribuir para ajudar, ou realmente dar destaque à causa. O objetivo é, mesmo que inconscientemente, dar destaque a elas mesmas, transmitindo uma imagem positiva. Enquanto a causa está a ser altamente discutida por todos os medias, todos nós ouvimos todos a falar eloquentemente acerca da mesma, são todos uns grandes entendedores no assunto, mas mal surge outro novo assunto que ocupa o lugar do anterior, que é facilmente esquecido passado três a quatro meses  encontramo-nos assim num ciclo altamente falacioso .

 

Fim do combustível fóssil e vandalismo a obras de arte

“O que vale mais a arte, ou a vida, vale mais do que a comida, mais do que a justiça, estamos mais preocupados com a proteção de um quadro, do que o nosso planeta e as pessoas, a crise do custo de vida faz parte da crise do petróleo, o combustível é inacessível a milhões de famílias com frio e com fome que nem se podem dar ao luxo de aquecer uma lata de sopa, que nem sequer tem dinheiro comprar uma lata de sopa.”

Um discurso feito por duas ativistas climáticas momentos depois de terem atirado sopa de tomate a obra “Sunflower” de Van Gogh, cada uma com uma mão colada com supercola á parede em que este quadro se encontrava.

Entre um dos recentes vandalismos á obras de arte para chamar atenção a luta contra o uso combustível fóssil, destacando também o vandalismo da obra “Morte e Vida” de Gustav Klimt no museu de Leopold Museuam de Viena e a mais recente uma estatura de cera de Rei Carlos III no museu Madame Tussauds, em Londres.

Mas até que ponto é a arte é um bom palco para questões climáticas e que até que ponte é que a sua vandalização ou pelo menos uma simulação muito bem feita resulta? Pois até a data nenhuma obra foi realmente danificada, mas sim o vidro que a protegia ou a sua moldura.

O principal objetivo da Just Stop Oil uma coligação de grupos de ativistas que colaboram juntos com o propósito de tentar que o governo britânico comprometa-se a desistir de todas as nova licenças e autorizações para a exploração desenvolvimento e produção de e combustíveis fosseis no Reino Unido. A principal maneira de a Just Stop Oil chamar atenção para este tipo de problemas é através de ações publicas não violentas, como greves e manifestações.

De facto, a desobediência civil sobre a luta contra o uso de combustível fóssil já tinha começado através de manifestações a porta de empresas e de bloqueios de estradas, mas apenas quando a desobediência civil chegou ou campo da arte é que as vozes das ativistas foram ouvidas.

Num mundo sensacionalista e de consumo imediato foi simplesmente preciso criar uma situação polemica que se choca-se as pessoas tal como atirar uma lata de sopa a uma das mais simbólicas obras da história da arte para o tema do combate ao uso de combustível fóssil ser abordado com a devida atenção que merece.

Apesar de ter sido uma estratégia excelente a nível de visibilidade , a arte não tem qualquer contexto ligado de uma forma coerente a este tema, a proteção e preservação de obras de artes entre tantas outras áreas é capaz de ser das que tem uma menor conexão com a luta contra o uso de combustível fóssil , a preservação de obras de arte não impede como na frase a cima citada“milhões de famílias com frio e como fome que nem se podem dar ao luxo de aquecer uma lata de sopa,(...)”, simplesmente  uma coisa não impede que a outra não se realize.

O direito a protestas e reivindicar ideias ainda por cima tão urgente como estas é legitimo e extremamente necessário devido a situação de urgência climática que nos encontramos, mas perde todo o seu fundamento quando não é obtido por diálogo mas sim alcançado a anular e destruir  outros conceitos , que deveras não tem nada a ver com o objetivo pretendido.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

E se fechássemos os olhos

 Disse Jesus:

“pois vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem compreender. Cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz:

«Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis. Porque o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converterem-se para Eu os curar».” (Mt 13, 13b-15)

 

Recentemente, tive de ler para a unidade curricular de Estudos de Pintura o livro “Século de Ouro: Da República Fiorentina ao Pós-readymade (O Manual)”. Neste, o professor Carlos Vidal faz uma análise da preponderância do sentido da visão em várias épocas a partir de Giotto, relacionando-a com os diferentes movimentos artísticos. De facto, impressionou-me conhecer como a cultura ocidental é maioritariamente ocularcêntrica, isto é, a visão ocupa o primeiro lugar em relação aos outros sentidos. Nesse livro, é também referida a “Carta sobre os cegos para uso daqueles que vêem”, um texto de Diderot em que este reflete sobre a experiência da cegueira.

Essa carta conduziu-me, por sua vez, às primeiras aulas de Cultura Visual, em que abordámos a arbitrariedade da linguagem, fazendo corresponder sons a ideias. A determinado momento, o cego de nascença de Puisaux afirma que quem o examina deveria ficar surpreendido não só com aquilo que ele é capaz de fazer, mas com o facto de ele ter a capacidade da fala. Isto porque tudo aquilo que um cego de nascença conhece, conhece-o através do tato e da descrição dos que vêem, e não da visão, não podendo assim associar uma palavra a um objeto visível, mas apenas à memória háptica que reteve ao tocar num objeto. Diderot resume esta ideia de um modo esclarecedor, sintetizando simultaneamente a questão da arbitrariedade da linguagem:

            Nós não chegamos a ligar uma ideia a uma porção de termos que não podem ser representados por objetos sensíveis, e que, por assim dizer, não possuem corpo, a não ser por uma série de combinações sutis e profundas das analogias que notamos entre esses objetos não sensíveis e as ideias que eles excitam; e cumpre confessar consequentemente que um cego de nascença deve aprender a falar mais dificilmente do que um outro, porquanto, sendo muito maior para ele o número de objetos não sensíveis, dispõe de muito menos campo do que nós para comparar e combinar.

Ora, sobretudo após Descartes, o conhecimento é genericamente associado ao sentido da visão. No entanto, e também através deste caso prático de Diderot, compreendemos que o verdadeiro conhecimento ultrapassa qualquer um dos sentidos – um cego, apesar de não ter os benefícios da visão, desenvolve os outros sentidos mais do que aqueles que vêem; um surdo, apesar de não ter os benefícios da audição, desenvolve os outros sentidos mais do que aqueles que ouvem. Aliás, na citação bíblica inicial (também citada no livro de Carlos Vidal), Jesus diz isso mesmo: possuímos os sentidos e as suas potencialidades, mas isso não significa que a nossa perceção da vida seja completa, que o nosso conhecimento da verdade seja perfeito.

Vivemos tempos de confusão e de incertezas, tempos dominados pelo capitalismo, pelas ideologias, pelo ataque à família, pela destruição da identidade, pela tentativa do cancelamento da história. Vivemos tempos em que muitas vezes o mais apetecível é fechar os olhos e fingir que não vemos. Vivemos tempos em que muitos são aqueles que vêem sem ver, que ouvem sem ouvir. Muitos são os feridos e as feridas endurecem o coração se não forem curadas. E o coração endurecido endurece os ouvidos e fecha os olhos. E os ouvidos endurecidos e os olhos fechados endurecem o coração. E, com o coração endurecido, tantas vezes nos afastamos da verdade, daquilo que podemos ver sem ver, daquilo que podemos ouvir sem ouvir, daquilo que quase podíamos compreender.

À volta de uma mesa

 A alimentação é um processo vital na vida do ser humano. Não tenho um extenso conhecimento daquilo a que chamamos Pré-História; no entanto, penso que é facilmente aceite se afirmar que por diversas situações intuitivas e pela transmissão de conhecimento de geração em geração ao longo da nossa História, o ser humano foi aprendendo aquilo que pode ou não ingerir. Além disso, a determinado momento aprendemos algo que mudou para sempre o modo como nos alimentamos: o cozinhar. A primeira evidência do ser humano cozinhar os alimentos data de cerca de 800,000 anos[1], apesar de ser possível ter começado antes. Como vimos numa das primeiras aulas da UC Cultura Visual, Lévi-Strauss considera o ato de cozinhar um elemento distintivo dos seres culturais: a culinária é uma manifestação extraordinária de arbitrariedade cultural. Mais distintivo ainda será a prática generalizada de, na grande maioria das sociedades atuais, ocidentais ou orientais, nos reunirmos à volta da mesa.

Contudo, aquilo que se pode observar nos nossos dias é uma desvalorização e, porventura, uma dessacralização do momento da refeição. Na correria do dia-a-dia, é comum tomarmos o pequeno-almoço sozinhos, almoçarmos sozinhos, lancharmos sozinhos, jantarmos sozinhos. E a solidão é um sintoma de como levamos a nossa vida. Tomamos o pequeno-almoço “a despachar” porque adormecemos e não podemos chegar atrasados à escola/faculdade/trabalho/outro; a meio das nossas atividades matinais, podemos comer umas bolachas, algo que nos tire a sensação de fome até à hora do almoço. Almoçamos acompanhados de amigos ou colegas, muitas vezes por uma questão de conveniência, isto é, porque são aqueles que, naquele determinado período da nossa vida, estão no mesmo contexto espacial que nós. Ainda assim, também não são raras as vezes que colegas de um mesmo trabalho almoçam cada um no seu canto. O lanche é semelhante às bolachas do meio da manhã e tantas vezes acontece ao mesmo tempo que trabalhamos. Ao final do dia, jantamos “em família”, o que significa que cada um janta quando tem fome e em tempos diferentes, devido aos diferentes horários dos elementos da família.

Inconsciente e paulatinamente, temos vindo a perder uma dimensão que é, na minha opinião, essencial: a comensalidade. Comensal é uma palavra que nos chega do latim commensalis[2], constituída por cum (= com) e mensa (= mesa). Comensalidade é, assim, a ação de se alimentar habitualmente à mesma mesa. Comensalidade refere-se não somente ao ato de comer e o que se come, mas ao modo como se come. A comensalidade reflete um momento em que partilhamos aquilo que nos permite continuar a viver, isto é, os alimentos. Ou seja, ao nos reunirmos em volta de uma mesma mesa (sendo já essa uma atitude arbitrária), estamos a partilhar aquilo que é vital para nós. Ainda assim, a comensalidade manifesta que aquilo que é vital ao ser humano não é só o alimento que tomamos, mas também o caráter social do ser humano. Por isso, o momento da refeição é um momento privilegiado de partilha, propício à socialização, ao desenvolvimento das nossas relações sociais, sejam elas relações familiares, de amizade, de trabalho, etc. A refeição é um momento em que colocamos aquilo que temos à disposição do outro; é um momento que contraria o egoísmo em que tantas vezes caímos.

É impressionante como retirar o sentido comunitário de algo tão importante como a alimentação pode trazer tantas consequências a uma sociedade. A refeição é um momento fundamental na construção de identidade, no qual todos estão ao mesmo nível ao juntar-se à volta da mesma mesa. Guardar o momento da refeição como se guarda algo sagrado é construir identidade, é construir comunidade, é contrariar o ritmo imparável dos nossos dias, é contrariar a fugacidade, é fazer durar um momento, é guardar a família, é colocar em comum aquilo que temos e somos, é partilhar a vida. Desprezar a comensalidade é um ataque à família enquanto núcleo da sociedade; por sua vez, atacar a família é desprezar a comensalidade. Mas esse seria tema para outro texto: o que é a família?