A Retórica da Imagem, segundo Roland Barthes, afirma que a imagem nunca se apresenta como um reflexo neutro da realidade, pois toda a representação opera em dois níveis simultâneos: o denotativo, relativo ao que é visível de forma imediata, e o conotativo, no qual intervêm códigos culturais, simbólicos e ideológicos que orientam e condicionam a leitura. Deste modo, a imagem cinematográfica, apesar da sua aparência naturalista, deve ser entendida como uma construção significante e não como um simples registo do real. Após os meus dois primeiros comentários serem relacionados a cinema, decidi que este último também o deveria, desta vez sendo o filme The Lighthouse de Robert Eggers.
Partindo do enquadramento do filósofo francês, The Lighthouse apresenta-se como um exemplo particularmente elucidativo deste funcionamento. À superfície, o filme parece limitar-se à representação de dois homens isolados num farol, presos a uma rotina laboral austera e a um ambiente hostil. No entanto, esta simplicidade narrativa encobre uma densa rede de significações conotativas que emergem de uma composição visual que utiliza o preto e branco, o enquadramento fechado e de uma insistência de simbologias.
A um primeiro olhar, a leitura denotativa identifica um espaço claustrofóbico, corpos em degradação e uma relação hierárquica entre as duas figuras masculinas. Contudo, como sublinha Barthes, é ao nível da conotação que a imagem produz o seu sentido ideológico. O farol deixa de ser apenas um objeto funcional e passa a operar como signo de poder, conhecimento interdito e desejo, enquanto a estética expressionista e mitológica convoca associações com punição, masculinidade tóxica e até mesmo loucura.
A força do filme reside precisamente em recusar a estabilização do sentido. A análise barthesiana permite compreender como The Lighthouse expõe a natureza construída da imagem e o seu potencial para gerar múltiplas leituras conotativas, sem nunca se apresentar como discurso neutro. Ao abdicar de uma orientação com uma interpretação explícita, o filme revela a imagem como um espaço de conflito simbólico, onde mito, ideologia e o desejo se entrelaçam, tornando visível aquilo que Barthes identifica como o carácter profundamente retórico de toda a representação visual.