Já há bastante tempo (anos, na verdade), que me apanho a pensar num telemóvel. O iPhone.
Esta linha da Apple, famosa no mundo inteiro, sempre me fascinou. Eu sempre tive telemóveis Android usados, ou então modelos baratos, com câmaras fracas e desempenho limitado. No início, o meu desejo por um iPhone parecia uma questão de necessidade: queria simplesmente algo que funcionasse bem. Mas, com o tempo e especialmente com a ascensão das redes sociais, esse desejo transformou-se em algo mais intenso, quase obsessivo.
Cheguei ao ponto de ponderar se investia num aparelho dentário ou no telemóvel. Acabei por escolher o aparelho, mas o desejo ficou. Agora, planeio comprar o iPhone 15 rosa, movido quase unicamente pela estética e pela reputação da marca. A publicidade alimenta essa vontade constantemente: cada anúncio, cada unboxing no YouTube, até cada indivíduo que vejo com um, desperta em mim um impulso automático de posse.
O meu telemóvel atual já não está no seu melhor, então a troca até seria justificável. Mas o curioso é que, mesmo sabendo que há outros smartphones mais baratos e até mais potentes, continuo convencido de que o iPhone é “diferente”. Há qualquer coisa no design, na aura, no simbolismo, como se possuir um fosse, de alguma forma, deixar-me totalmente realizado.
E é aí que, sem querer, lembro-me de Karl Marx e do seu conceito de fetichismo da mercadoria: essa capacidade que os objetos têm, dentro do capitalismo, de ganharem uma vida própria. Passam a representar mais do que o que realmente são. O iPhone deixa de ser apenas um telemóvel e torna-se um símbolo de status, gosto e modernidade.
Quando olhamos para ele, não vemos o processo inteiro que o trouxe até nós: o trabalho, a produção, a exploração, a publicidade, as estratégias de desejo. Só vemos o brilho. E é nesse brilho que projetamos tudo o que queremos ser. Marx dizia que é aí que o objeto se torna “fetichizado”: quando deixamos de o ver como uma coisa e começamos a vê-lo como uma promessa.
E isto faz-me refletir bastante. Eu sei que o iPhone não é, no seu interior, o melhor telemóvel do mundo. Sei que pode avariar, que não é eterno, e que o ciclo de consumo vai continuar. Mas mesmo assim, continuo a desejar o mesmo objeto, independentemente da sua fragilidade.
Perceber isto fez-me pensar em como o consumo, hoje, serve essencialmente para preencher, não tanto necessidades, mas vazios. Compramos para nos sentirmos mais completos, mais atualizados, mais visíveis. Mas o objeto nunca cumpre essa promessa. Assim que o temos, surge outro modelo o ciclo recomeça.
Não acho que querer um iPhone seja um problema em si. O problema é quando o desejo se torna automático, inevitável, como se fizesse parte de quem somos. Quando o que escolhemos deixa de ser escolha e passa a ser reflexo de um desejo que já foi decidido por nós. Eu realmente acredito que vou ser uma versão mais bonita, mas atraente, mais confiante de mim se tiver este telemóvel. E é aí que está o erro.
Talvez, no fundo, o que me fascina no iPhone não seja o aparelho em si, mas o modo como ele reflete a minha própria vontade de ser mais: mais criativo, mais bonito, mais confiante, mais próximo da versão de mim que eu idealizo há tanto tempo.