quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Panoptismo português

Novembro, 2025

Michel Foucault, em Vigiar e Punir, mostra como o poder moderno deixou de atuar apenas através da força física e passou a funcionar de forma mais subtil, moldando comportamentos, emoções, modos de pensar... Para Foucault, o poder já não se limita a castigar, ele produz sujeitos, cria fronteiras entre o “normal” e o “anormal” e fabrica figuras que a sociedade deve vigiar ou temer.

A meu ver, uma das ideias mais importantes do autor é a de que o poder funciona melhor quando consegue orientar as pessoas a vigiarem-se umas às outras. Isto acontece quando são criadas categorias de indivíduos considerados “perigosos” e “ameaçadores”, os “culpados pelos males da sociedade”. É assim que se alimenta o medo, o ressentimento e a necessidade de “proteger” uma norma social que, na verdade, é construída e manipulada.

Quando penso no que Foucault descreve e olho para Portugal hoje, percebo como estas ideias se mantêm atuais. Vejo como certos discursos políticos recuperam precisamente este mecanismo: definem minorias como o problema, apontam grupos vulneráveis como ameaça e transformam inseguranças sociais reais em armas retóricas. O resultado é a criação de inimigos internos que servem para simplificar um país que, na realidade, é muito mais complexo do que sugerem.

É aqui que entra o Chega. A forma como o partido fala de comunidades específicas — imigrantes, ciganos… Estes ideias que se carregam no partido parecem encaixar perfeitamente no que Foucault chamava de dispositivos de disciplinamento e normalização. Ao culpar estes grupos por problemas que são, na maior parte, estruturais e políticos, o discurso do Chega produz exatamente aquilo que o poder disciplinar precisa: desviar a atenção do essencial e canalizar frustração para alvos simples, frágeis e facilmente identificáveis.

Quando ligo esta leitura à minha própria percepção, sinto que aquilo que estamos a viver é uma forma de vigilância moral coletiva. Não é uma torre de vigia, como no Panóptico, mas é um clima em que nos dizem quem devemos temer e de quem devemos desconfiar. E a verdade é que nada disto resolve os problemas sociais reais; apenas reforça divisões, alimenta ressentimentos e mantém intacta uma ideia de “normalidade” que beneficia quem está no topo e não quem vive as dificuldades do dia a dia.

No fim de contas, o que retiro de Foucault é uma ferramenta para ver melhor o mundo: perceber como certos discursos (maioritariamente de odio)  nos querem fazer olhar numa direção enquanto os verdadeiros desafios ficam fora de foco. E, ao aplicar isto ao Portugal de hoje, vejo com clareza como o discurso do Chega opera dentro desta lógica — não oferecendo soluções reais, mas produzindo culpados. E isso, para mim, é talvez a forma mais perigosa de poder: aquela que se veste de simplicidade e efetividade e acaba por manipular a forma como vemos os outros e até nós mesmos.