quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Jeans e Genes

 

            A teoria da Retórica da Imagem de Roland Barthes adverte que nenhuma imagem é inocente, toda a representação comunica simultaneamente uma mensagem denotativa, ou seja, a imagem de forma literal, e uma mensagem conotativa, que parte de um conjunto de significados culturais, históricos e ideológicos que aprendemos a associar ao que observamos. Uma imagem está sempre carregada de códigos sociais que moldam a sua interpretação.

Partindo disto, recentemente tomei atenção a um caso relativo ao anúncio “Sydney Sweeney Has Great Jeans” da American Eagle, que funciona como um exemplo claro deste mesmo mecanismo. Visto à superfície, um vídeo de estética leve, construído em torno de um trocadilho “aparentemente” ingénuo, mas a verdade é que de ingénuo não tem nada, dado as suas conotações que surgem do combinar da estética supostamente ingénua com a ambiguidade sexualizada do trocadilho, que acentua um campo semântico que já se encontra completamente saturado de conotações patriarcais.

À primeira vista, a leitura denotativa é simples, parte de uma atriz conhecida que veste calças de ganga e afirma que tem “boas jeans”. A conotação, como lembra Barthes, é onde se fabrica persuasão e ideologia e, aqui, identifica-se no trocadilho entre “jeans” e “genes” uma ressonância simbólica que ultrapassa a promoção de um produto, sobretudo quando a campanha exibe uma figura de olhos claros e cabelo loiro num contexto mediático sensível a mensagens sobre raça e beleza. O seu slogan orienta para uma leitura genética eugenista inapropriada e historicamente carregada, quando o texto brinca com “genes”.

A repercussão pública mostra como uma ancoragem verbal pode tornar saliente uma leitura conotativa que, sem essa ancoragem talvez permanecesse latente. A análise barthesiana convoca ao reconhecimento que as imagens publicitárias não “apenas vendem”, elas inscrevem valores e selecionam mitos que podem reproduzir exclusões. A resposta pública ao anúncio, que incluiu vozes que apontaram para alusões a eugenia, funcionou como uma forma de leitura política que recusou a naturalização dos signos e exigiu responsabilização simbólica por parte da marca e da atriz.