sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Uma Sociedade Irresponsável

 Num tempo onde priorizamos o que é ser humano e a independência e o livramento a que o ser humano necessita para se sentir sucedido, estuda-se, analisa-se, pensa-se, integra-se, conversa-se, age-se e socializa-se a ideia de independência e de uma vida livre. 


O que torna esta natureza do ser humano irreal. Uma mentira, visto que vivemos todos às custas de um sistema criado por nós próprios, sociedades antigas que apesar de já não terem uma presença grande, naturalmente, já não existem as suas origens, mantêm um propósito maior a como nos organizamos como sociedade. 


Nascemos, brincamos, comemos, crescemos, aprendemos, vivemos, erramos e ficamos presos neste circuito. Como sociedade tentamos funcionar para além desta norma, sair um bocado da rotina do que é ir para a escola, para o trabalho, para um jantar em família que acontece todos os domingos às oito da noite para conviver com pessoas novas que de estranhos passaram a ser família. Fugimos um bocado a isso, saímos com os amigos, conhecemos gente nova, bebemos até cair, aprendemos até os olhos ficarem cansados, até as mãos já não funcionarem de estarem sempre na mesma posição quando fazemos crochê. 


Somos rápidos em reconhecer, como sociedade, os direitos que temos e que deveríamos ter para termos uma vida concretizada, fora da norma e lutamos contra o esperado estado robótico induzido em nós. Agarramo-nos rapidamente a coisas que nos forçam a sair da nossa rotina que nos fazem ter uma impressão de individualidade, que no fundo são atividades coletivas dentro dos limites ainda impostos neste âmbito. 


Neste caso, temos a tendência de virar as costas ao próximo, cria-se um individualismo que não corresponde ao conceito de uma sociedade. Uma comunidade que no século XVII não era livre. A presença da censura, da ditadura presente em tudo o que é transmitido para o próximo, limites colocados por crenças, por leis, por pessoas ao nosso redor. Na altura, não se questionava o porquê, hoje as histórias repetem-se mas apenas um terço da sociedade questiona o porquê e age. 


Michel Foucault analisa e explora estes conceitos seguindo a temática da sexualidade, a maneira como o sexo era visto e como a identidade pessoal era censurada e limitada perante a sociedade. Não muito diferente dos dias de hoje, visto que estagnamos a meio do processo, presos nas entre linhas entre um pensamento contemporâneo e o tradicional. 


Tal como os direitos individuais de hoje em dia, os direitos sexuais, na altura, eram tratados com uma indiferença maior, que correspondia a seguir leis e normas que não ajudam uma sociedade em si mas apenas aqueles que a podem ditar. 


Falar, discutir, aprender, interpretar, entender, são todos conceitos que de certa forma, ainda não foram aplicados na sua totalidade, no século XVII, a questão da sexualidade era controlada da censura até à prisão individual. Controlada, porque o vocabulário não correspondia às exigências respeitadas de sociedades outrora. Controlada, porque não correspondia com as crenças de outros, com a praticidade da vida de outros, com as escolhas da vida de outros. 


Se as pessoas com um poder maior não querem saber, porque é que nós queremos? 


Surgiram regras no casamento para aceitar práticas sexuais. Não incluindo outros aspectos da sexualidade, como a identidade e o bem estar. Apenas práticas. O dever e a capacidade de praticar a responsabilidade do que é o sexo num casamento, a maneira como era cumprida, as exigências e as violências que o acompanhavam, as caricias inúteis e indevidas as quais serviam apenas para aparências, a fecundidade, os momentos onde era solicitado, independentemente da sua raridade ou da sua frequência. Todos estes, tornam-se em pontos, totalmente para além do que é o direito do ser humano por serem regras durante o matrimônio, não levando em consideração um estado espiritual maior, que determina a origem da alma do ser humano - o consentimento, o querer. 


Com o desenvolvimento da sociedade e as novas tecnologias, novos conceitos, novas descobertas e explorações, criou-se um contraste entre estes pensamentos, apesar de não muito nítidos. Como sociedade, ainda se esperam estas obrigações durante o casamento, espera-se seguir estes aspetos que transparecem como tradicionais para enganar o próximo que ainda é livre. Estes limites perante o casamento ficaram distorcidos, em vez de respeitarmo-nos uns aos outros e a essência do que é o ser humano e os seus direitos, transformamos estas normas como um dia a dia, não muito aceite pela sociedade mas que é praticado por mais de metade que a compõe. 


“Thank the lord for my kids even if nobody else want ‘em

‘Cause I think we can make it, in fact, I’m sure

and if you fall, stand tall and come back for more”


tradução:

“Agradeço a Deus pelos meus filhos mesmo que ninguém os queira

Porque eu acho que nós conseguimos, aliás, tenho a certeza

E se tu caíres, levanta-te e volta para mais”


Keep Ya Head Up - Tupac, 1993


Porquê uma fuga do que é a norma, o esperado estado robô, se voltamos sempre ao mesmo só que com um outro ambiente? Talvez a verdadeira irresponsabilidade da sociedade seja fingir que é livre quando continua presa às mesmas correntes.