segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A ficção salva e a realidade mata?

     É fácil perdermo-nos num mundo ficcional. Atualmente, e com a quantidade de conteúdos televisivos que nos são “oferecidos”, temos a oportunidade de ver o que precisamos de ver onde e quando queremos. A realidade que conhecemos é aborrecida. Quem não dá por si a sonhar acordado, envolvido em sonhos e aspirações, a qualquer altura do dia?
     Verdade seja dita, até o pensamento é inimigo. A nossa mente é um doce inimigo. Perdemo-nos nos sonhos porque desejamos fugir da realidade e magoamo-nos porque nem sempre as coisas correm como as imaginamos ou como nos são apresentadas. Não há quem nos queira pior do que o burburinho cerebral de um objetivo que não foi cumprido.
     Somos alimentados diariamente por aquilo que se sabe que queremos ver. A vida é dura e o mundo está neste momento a ser engolido por um buraco negro e, ao contrário do que dizia Stephen Hawking, não acredito que este nos levará a um universo paralelo. Para saber mais sobre este fenómeno cósmico, há o National Geographic. Se a intenção é rir, há séries de comédia. E depois há a Netflix. Nunca mais fomos os mesmos desde a versão streaming dessa máquina de fazer dinheiro.
     Assim, estão reunidos os ingredientes para a fixação persistente que se estabelece com a utopia ficcional, e não há cura que nos permita o distanciamento. Somos inspirados e contagiados pela fantasia, apoderando-nos dela, tornando-a nossa, como um refúgio pessoal. Consumimos Literatura de forma voluntária e, inconscientemente, acumulamos sabedoria, de modo a compreender melhor o mundo e os que nele habitam, para que a realidade mate um pouco menos. Pode-se dizer que é a ficção que sustenta o universo, que nos salva de cair no desconhecido e na ignorância, ao representar as ações do Homem com o intuito de corrigirmos os nossos erros. Mas depois não o fazemos. Não me manifesto porque não queria perder a estreia daquele episódio, posso não me preocupar com o que me rodeia porque abro um livro e absorvo uma realidade alternativa. É assim que vivemos, é desta forma que se desenrola o quotidiano, e caímos na ilusão de pensar que o tempo passa “a correr”.
   A ficção é um escape ao qual nos podemos submeter quando consciencializados de que vivemos no presente, apesar de ser um presente que foi passado a ver o Narcos durante quatro horas.