É
fácil perdermo-nos num mundo ficcional. Atualmente, e com a quantidade de
conteúdos televisivos que nos são “oferecidos”, temos a oportunidade de ver o
que precisamos de ver onde e quando queremos. A realidade que conhecemos é
aborrecida. Quem não dá por si a sonhar acordado, envolvido em sonhos e
aspirações, a qualquer altura do dia?
Verdade seja dita, até o
pensamento é inimigo. A nossa mente é um doce inimigo. Perdemo-nos nos sonhos
porque desejamos fugir da realidade e magoamo-nos porque nem sempre as coisas
correm como as imaginamos ou como nos são apresentadas. Não há quem nos queira
pior do que o burburinho cerebral de um objetivo que não foi cumprido.
Somos alimentados diariamente por
aquilo que se sabe que queremos ver. A vida é dura e o mundo está neste momento
a ser engolido por um buraco negro e, ao contrário do que dizia Stephen Hawking,
não acredito que este nos levará a um universo paralelo. Para saber mais sobre
este fenómeno cósmico, há o National Geographic. Se a intenção é rir, há séries
de comédia. E depois há a Netflix. Nunca mais fomos os mesmos
desde a versão streaming dessa máquina de fazer dinheiro.
Assim, estão reunidos os
ingredientes para a fixação persistente que se estabelece com a utopia
ficcional, e não há cura que nos permita o distanciamento. Somos inspirados e
contagiados pela fantasia, apoderando-nos dela, tornando-a nossa, como um
refúgio pessoal. Consumimos Literatura de forma voluntária e, inconscientemente,
acumulamos sabedoria, de modo a compreender melhor o mundo e os que nele habitam,
para que a realidade mate um pouco menos. Pode-se dizer que é a ficção que
sustenta o universo, que nos salva de cair no desconhecido e na ignorância, ao
representar as ações do Homem com o intuito de corrigirmos os nossos erros. Mas
depois não o fazemos. Não me manifesto porque não queria perder a estreia daquele
episódio, posso não me preocupar com o que me rodeia porque abro um livro e
absorvo uma realidade alternativa. É assim que vivemos, é desta forma que se
desenrola o quotidiano, e caímos na ilusão de pensar que o tempo passa “a
correr”.
A ficção é um escape ao qual nos
podemos submeter quando consciencializados de que vivemos no presente, apesar
de ser um presente que foi passado a ver o Narcos durante quatro horas.