terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Miúdos na rua procuram-se

Não vale a pena dizer que as novas gerações estão completamente dependentes do telemóvel e da internet, porque isso é mais que evidente nos dias de hoje. Basta apanharmos o metro e olhar à nossa volta. Rapidamente nos apercebemos que estamos rodeados de pessoas emergidas no seu smartphone (sim, porque o termo 'telemóvel' já começa a entrar em desuso); um telemóvel inteligente de tal forma que torna o humano (o - suposto - ser inteligente) completamente dependente de si; torna-se curioso, visto que ele de facto não existiria se tal dependência humana não existisse. Um dependente a inverter os papéis da dependência, que surge da necessidade humana de estar ligado, actualizado; quando na verdade estão completamente desligados de si próprios e do que os rodeia; desligados do presente, do real.
Mas ele não vem sozinho! Pois tão bem quanto o sal está para a pimenta, estão as redes sociais para os smartphones. Aplicações como o Facebook ou o Instagram que estão repletas de artificialidade, de vida forçada, ou, se preferirmos, representada, para que os outros possam ver e criar a sua própria opinião sobre uns outros, baseada naquilo que deixam disponível, que querem que se veja. Todo um mundo artificial - baseado na imagem, do que é visível, visual -, é criado com intenção ilusória para o seu espectador. Como que uma manipulação deles próprios, um melhoramento visual, transmitido através da fotografia, da imagem. Basicamente é como se a sua vida e a sua essência estivessem reduzidas a isso, num trocar a vida por imagens. Ser através do parecer. Artificialidade. A vida com domínio no simbólico, a perder o seu significado.
A mudança é eminente e só não estará à vista dos mais desatentos. Já não se vê um miúdo de 10 anos sem um telemóvel, nem um miúdo de 4 que não tenha um tablet para jogar. Dependência dos filhos, dependência dos pais - que preferem mantê-los controlados, seguros, distraídos, sem chatear; que nem se apercebem de facto o que estão a alimentar.
É, na verdade, para mim, assustador pensar onde é que isto - esta evolução tecnológica que resultou em dependência - nos levará... Faz-me pensar que a realidade absurda dos filmes de ficção científica está cada vez menos (absurdamente) distante.
Onde é que estão os miúdos a jogar à bola na rua, a andarem de bicicleta e a chegarem a casa suados, sujos, com as calças a precisar de novas joelheiras, cansados, satisfeitos, felizes e cheios de vida?