Quando a primeira bomba atómica, «Little Boy», foi lançada sobre Hiroshima a 6 de agosto de 1945, ninguém percebeu o impacto catastrófico imediato que teria. Três dias depois é lançada uma segunda bomba em Nagasaki. Alguns dos lembretes mais assustadores da devastadora perda de vidas em Hiroshima e Nagasaki são as «sombras nucleares» gravadas em prédios e calçadas. Essas sombras nucleares representam a rapidez com que a vida humana pode ser obliterada.
Fig. 1 - Eiichi Matsumoto, Sombra restante do soldado na parede de madeira do quartel-general militar de Nagasaki, 1945, fotografia.
Eiichi Matsumoto (1915-2004), fotógrafo japonês, trabalhou durante a Segunda Guerra Mundial como fotojornalista no jornal Asahi Shimbun, cobrindo várias cidades japonesas bombardeadas, fotografando os escombros da explosão. A ‘’sombra’’ de uma escada e um soldado japonês aparece gravada numa parede de um edifício após a explosão atómica na cidade de Nagasaki pelos EUA, em 1945.
Aquilo que vemos como sombra, na verdade não é apenas uma sombra. O que vemos de mais escuro são restos enegrecidos da matéria orgânica do corpo. A sombra e o reflexo são os primeiros duplos naturais e o mito da origem da imagem gira em torno da noção de sombra e duplo e este assombramento a que assistimos é, na verdade, um encontro com o nosso vazio. Esta interiorização do corpo morto (o elemento negativo) num vazio torna qualquer ser humano possível – pelo seu vazio íntimo.
Torna-se esse o imperativo de qualquer imagem fotográfica: ‘’(...) é da morte imemorial que se tem de guardar memória’’ [1]. Fazemo-nos aparecer porque somos sensíveis ao desaparecimento. Só um ser sensível ao desaparecer definitivo tem necessidade de se fazer aparecer (para a posteridade).
Fig. 2 - Pintura rupestre de uma «mão negativa», caverna de Chauvet.
A caverna de Chauvet (ou Chauvet-Pont-d'Arc) localizada no Sul de França mostra as primeiras assinaturas do ser humano, as mãos negativas e positivas sopradas e decalcadas. A boca torna-se o lugar que aspira e que sopra, que ‘’quando se esvazia, inscreve, porque não é uma boca que cospe nem uma boca que grita. Esta boca expulsa, com a força do seu sopro, a matéria dos signos’’[2]. A espécie humana nasce com o sopro, com as imagens sopradas e, segundo Marie-José Mondzain, o homem que aqui se faz desenhar experimenta a temporalidade pelo acto de trazer ao mundo a sua mesma eternidade por se saber imortal. Porém, na imagem de Nagasaki a imagem morre com ele, vemos o corpo literalmente soprado. Chauvet é um limiar da arte, estamos no começo, na origem. Em Nagasaki estamos aquém.
Quando me cruzei com as sombras de Hiroshima pela primeira vez, senti-me uma impostora por estar perante uma imagem tão bonita, mas com um significado tão forte e violento, de um momento tão atroz da história da Humanidade. Talvez tenha sido o momento em que mais recuei de mim mesma e percebi o quão imprevisível, ínfimo e instável tudo é no mundo. Talvez a arte também sirva para isso. Como se torna possível sermos a única espécie a levar a luta intra-espécie ao ponto de a extinguir totalmente e, ao mesmo tempo, a espécie da auto-criação que se duplica? Diariamente somos encurralados com imagens de guerra de forma massificada e violenta, numa crescente exploração emocional e uma estranha aliança entre a beleza das imagens e o sofrimento que elas retratam.
[1] Tomás Maia (2009) Assombra - Ensaio Sobre a Origem da Imagem, Lisboa: Assírio & Alvim, p. 143.
[2] Marie-José Mondzain (2015) Homo Spectator - Ver, Fazer-ver, Lisboa: Orfeu Negro, p. 39.