Após a leitura de uma notícia referente à destruição de uma obra de Frida Kahlo, e um posterior visionamento da documentação [1] desta por parte do agressor, é difícil de entender a proporção a que o interesse financeiro e a ganância desmedida atingiram em relação à arte e ao artista.
O artigo do DailyMail [2], de 9 de Novembro de 2022, relata a destruição irreparável de um desenho “Fantasmones Siniestros”, de 1944, da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) por Martin Mobarak, que o teria adquirido de uma coleção privada. Numa festa privada em Miami, o empreendedor mexicano-libanês retirou o desenho da sua moldura protectora, colocou o desenho num copo de martini e em seguida incendiou o desenho, queimando-o completamente. Esta ação, segundo o mesmo, marcaria o lançamento de uma série de 10.000 NFTs (Non Fungible Tokens) que seriam reproduções da obra destruída, declarando “Like a Phoenix rising from its ashes, this collection of 10,000 NFT's represents the rebirth & immortality of a timeless piece”.
Este episódio relança algumas questões que já tinham sido abordadas pela exposição intitulada “The Currency”, por parte do artista britânico Damien Hirst, que deu aos seus compradores a escolha entre a posse das obras físicas ou em formato NFT. Os compradores que escolhessem o formato digital teriam as suas obras físicas destruídas em mecanismos de incineração na Newport Street Gallery, um ato performativo que Hirst levaria a cabo com os seus ajudantes.
Há aqui a confirmação da arte enquanto um instrumento da valorização do valor (capital), em contraste com a valorização do trabalhador (que neste caso se pode revelar ser o artista) e das suas necessidades humanas, algo defendido por Marx. A arte, no seu estado mais puro e primordial, deve apresentar-se como um “dom” de existência do artista no mundo, para além da sua condição de subsistência humana, um ponto que entra em conflito com a ideia que o capitalismo financeiro tece perante o mundo artístico, no seu estado mercantil, onde o artista está preso ao seu “dom” por meio da exigência da satisfação das suas necessidades humanas.
Neste sentido, os NFTs surgiram para refletir um ideal do capitalismo financeiro, o dinheiro, que passa de um meio de troca para um meio absoluto e emancipado da relação humana, perante um crescimento infinito de lucro e também de uma infinita autogeração. É possível refletir na forma como este se equipara a uma relação com o divino, no sentido em que não há uma possibilidade de controle deste pela condição humana visto a sua independência, autogeração e multiplicação face a esta.