domingo, 18 de dezembro de 2022

Capitalismo e a Arte

    Após a leitura de uma notícia referente à destruição de uma obra de Frida Kahlo, e um posterior visionamento da documentação [1] desta por parte do agressor, é difícil de entender a proporção a que o interesse financeiro e a ganância desmedida atingiram em relação à arte e ao artista.

    O artigo do DailyMail [2], de 9 de Novembro de 2022, relata a destruição irreparável de um desenho “Fantasmones Siniestros”, de 1944, da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) por Martin Mobarak, que o teria adquirido de uma coleção privada. Numa festa privada em Miami, o empreendedor mexicano-libanês retirou o desenho da sua moldura protectora, colocou o desenho num copo de martini e em seguida incendiou o desenho, queimando-o completamente. Esta ação, segundo o mesmo, marcaria o lançamento de uma série de 10.000 NFTs (Non Fungible Tokens) que seriam reproduções da obra destruída, declarando “Like a Phoenix rising from its ashes, this collection of 10,000 NFT's represents the rebirth & immortality of a timeless piece”. 



Fig.1 - Desenho “Fantasmones Siniestros” em combustão

    Este episódio relança algumas questões que já tinham sido abordadas pela exposição intitulada “The Currency”, por parte do artista britânico Damien Hirst, que deu aos seus compradores a escolha entre a posse das obras físicas ou em formato NFT. Os compradores que escolhessem o formato digital teriam as suas obras físicas destruídas em mecanismos de incineração na Newport Street Gallery, um ato performativo que Hirst levaria a cabo com os seus ajudantes.

    Há aqui a confirmação da arte enquanto um instrumento da valorização do valor (capital), em contraste com a valorização do trabalhador (que neste caso se pode revelar ser o artista) e das suas necessidades humanas, algo defendido por Marx. A arte, no seu estado mais puro e primordial, deve apresentar-se como um “dom” de existência do artista no mundo, para além da sua condição de subsistência humana, um ponto que entra em conflito com a ideia que o capitalismo financeiro tece perante o mundo artístico, no seu estado mercantil, onde o artista está preso ao seu “dom” por meio da exigência da satisfação das suas necessidades humanas.

    Neste sentido, os NFTs surgiram para refletir um ideal do capitalismo financeiro, o dinheiro, que passa de um meio de troca para um meio absoluto e emancipado da relação humana, perante um crescimento infinito de lucro e também de uma infinita autogeração. É possível refletir na forma como este se equipara a uma relação com o divino, no sentido em que não há uma possibilidade de controle deste pela condição humana visto a sua independência, autogeração e multiplicação face a esta.






[1] https://www.youtube.com/watch?v=_M23F73G0Jc&ab_channel=FridaNFT
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[2] https://www.dailymail.co.uk/news/article-11406081/NFT-fanatic-Martin-Mobarak-investigation-BURNING-10million-Frida-Kahlo-drawing.html