terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Mais vale pare(ser)

 Já desde há muito tempo que tenho interesse em ténis. Desde que comecei a ver a NBA na televisão que queria ter os ténis iguais aos dos jogadores. Ao vê-los a jogar achava que os ténis lhes davam poderes mágicos, e que era assim que conseguiam fazer as proezas que se viam em campo.

Entretanto fui crescendo, e com o passar do tempo comecei a ganhar interesse em comprar alguns desses ténis, visto que também comecei a jogar basquetebol, e nunca perdi o interesse no desporto.

Infelizmente quando fui comprar um par pela primeira vez, percebi que os ténis que sempre quis eram não só limitados, como bastante caros.

Comecei a informar-me sobre este tema, e percebi que o preço entre o modelo x e y de ténis, mesmo que sejam iguais, pode multiplicar por 5, 10, 50, ou até 100 vezes simplesmente por a cor ser diferente, ou por ser uma edição especial.

Da mesma forma, os ténis mais caros nem são necessariamente os melhores para praticar desporto, ou os mais confortáveis. A apreciação do produto é avaliada na sua raridade (e no prestígio que vem com a sua posse), não propriamente na sua utilidade ou história.

Max Horkheimer e Theodor Adorno falam sobre este tema em “ O ‘valor de uso’ da cultura cede lugar ao ‘valor de troca’ ”, onde diz “O que se poderia chamar de valor de uso na recepção dos bens culturais é substituído pelo valor de troca; ao invés do prazer, o que se procura é assistir e estar informado, o que se quer é conquistar prestígio e não se tornar um conhecedor.”[1]

Este excerto resume perfeitamente o estado atual da cultura de consumismo em que vivemos. O consumidor geral prefere adquirir bens simplesmente por a sua etiqueta ter mais zeros que a dos outros, ou porque este ou aquele famoso os usou na rua.

Muita gente que compra ténis caros raramente os usa, pois quer que o valor não deprecie por estarem usados. Compra-os para mais tarde os vender, pois sabe que foram produzidos em números limitados e que estão esgotados em todo o lado.

A flutuação da preço de um produto é diretamente proporcional ao seu prestígio, ao invés da sua usabilidade. Como dizem Horkheimer e Adorno “O valor de uso da arte, seu ser, é considerado como um fetiche, e o fetiche, a avaliação social que é erradamente entendida como hierarquia das obras de arte - torna-se o seu único valor de uso, a única qualidade que elas desfrutam.”[1]

Em resumo, à medida que os países de primeiro mundo aumentam a sua qualidade de vida, as suas populações vão preferindo adquirir bens não pela sua utilidade, mas pelo estatuto social que estes lhe proporcionam ou pelo seu potencial valor de troca.

[1] Horkheimer, Max e Theodor Adorno "A Indústria cultural. O Iluminismo como Mistificação das Massas" Dialética do Esclarecimento, 1947