segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Não somos pessoas nem artistas, somos quantidade e dinheiro!

Hoje em dia é difícil conhecer alguém (sem contar com gerações mais velhas) que não esteja de alguma forma associado a uma das várias redes sociais que já foram criadas, mesmo aquelas que já não são utilizadas. Inicialmente, estas foram criadas para que exista uma maior conexão entre parentes, amigos e pessoas com gostos em comum à distância, tornando a comunicação mais rápida e fácil. Agora é muito mais que isso, elas são utilizadas para mostrarmos ao mundo apenas aquilo que queremos mostrar, o que vimos, o que fazemos no dia a dia e inclusive para a partilha da nossa própria arte. Já me deparei com arte tradicional, arte digital, escrita, têxteis, vídeo, fotografia, representação (teatro), maquilhagem, música, entre muitas outras.

Com a quantidade de utilizadores inseridos em cada rede, o nosso trabalho é cada vez menos visível por si só, mas ultimamente algo tem mudado muito rapidamente e de uma forma assustadora. Vamos referir um dos maiores exemplos de hoje em dia, o Instagram, uma rede onde apenas se partilhava fotografias anteriormente, no nosso perfil, hoje em dia a quantidade de opções que lá existem é quase “deslumbrante”, mas não nos podemos esquecer do efeito que isso tem em cada um de nós. Existem as fotos do perfil, a página inicial, existe a loja, existe a “explore page”, "stories" que desaparecem passado 24 horas, os diretos e mais recentemente os "reels" que apareceram por causa da popularidade que o Tiktok começou a ganhar em relação a tudo o resto. Recentemente, todas estas plataformas arranjaram uma forma rápida de vermos o máximo de conteúdo possível, o problema está naquilo que surge como consequência disso. Todos aqueles que conheço que partilhavam o seu trabalho artístico e até eu com a música começámos a reparar nas mudanças que esta rede criou na nossa interação com o mundo. Os vídeos rápidos quase todos os dias se não mesmo todos, são praticamente obrigatórios para as nossas criações continuarem a ser vistas mesmo que estas não se encaixem no formato, as tendências são criadas e o algoritmo leva-nos a elas na esperança que também as façamos para podermos aparecer, a página inicial mostra apenas as publicações com mais interações, deixando de lado aqueles que começaram recentemente, e os anúncios de grandes marcas e empresas são prioritários às coisas que gostamos, inclusive, (agora escrevendo de uma forma hiperbólica), a fotografia de natal da minha tia que já não vejo há 10 anos, ou seja deixamos de ver o que realmente importa. 


A nossa vida acaba por ser invisível e a produção rápida e com pouca criatividade é incentivada. É como o funcionamento de algo quase industrial, cópias e variações do mesmo vezes e vezes sem conta, o máximo de dias possíveis consecutivamente, os grandes criadores e as marcas são o mais importante e de outra forma, para ganharmos relevância ao começar, temos de pagar. No fundo acaba por ser um espelho do dia a dia na sociedade e no mundo real. Aquilo que tentamos fazer nos nossos ecrãs não é de todo principal em comparação com termos um salário péssimo, um horário pouco humano, não arranjarmos trabalho e não conseguirmos comer, pagar contas ou sair de casa dos pais e formar a nossa própria vida, mas a ideia de uma exagerada produção de cópias destrói uma união que era suposto existir entre comunidades artísticas e impede-nos de conhecermos com mais facilidade os nossos interesses e arranjarmos forma de comunicar com quem precisamos ou desejamos, no fundo depois de um dia de trabalho precário, aquilo que encontramos nos nossos ecrãs e que nos promete lazer e uma maior comunicação com o mundo, deixam-nos apenas isolado do mesmo.