segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

O Mundial da Vergonha

O Campeonato do Mundo de 2022 disputado no Qatar teve início dia 20 de novembro, mas decorreram 12 anos de preparação e controvérsias que tornaram este mundial o mais polémico até a data.

Uma competição que dá que falar, desde desrespeito a direitos humanos, intolerância à comunidade LGBTQ+, a alegada corrupção que levou à eleição deste país para ser organizador da prova e às 6750 mortes decorrentes da construção dos estádios.

Os trabalhadores responsáveis pela construção do estádio “Khalifa Stadium”, e das instalações desportivas conhecidas por “Aspire Zone” são maioritariamente imigrantes de Bangladesh, Índia e Nepal. Estes foram explorados de várias maneiras: Procuraram emprego no Qatar numa tentativa de fugir da pobreza dos seus países, chegando a pagar quantidades absurdas de taxas de recrutamento; Se arranjaram trabalho, tiveram de viver em acomodações com pouco espaço, sujas e inseguras; Os recrutadores mentiam em relação aos salários (os trabalhadores ganhavam metade do que lhes era prometido, cerca de 180€, ou seja, menos de ¼ do salário mínimo português); Os trabalhadores afirmam também que os salários chegavam atrasados deixando-os impossibilitados de sustentar as suas famílias; Alguns empregadores não forneciam autorizações de residência, embora este documento seja obrigatório pela lei do Qatar. Este documento mostra que os empregados podem viver e trabalhar no país anfitrião, estes sentiam medo de serem presos ou multados se saírem do seu local de trabalho; Os empregados alegam também que os empregadores confiscavam os seus passaportes para que a saída do país de forma legal se tornasse impossível. Para os trabalhadores poderem sair do país tinham de solicitar uma “permissão de saída” à companhia para a qual trabalhavam. Os empregados que faziam pedidos eram no melhor caso ignorados, ou, no pior caso, ameaçados; Existem, por último, empresas que forçavam os empregados a trabalhar. Os que se recusavam eram ameaçados com redução do seu salário ou seriam entregues à polícia para serem deportados sem receber o dinheiro que lhe é devido.

A eleição do Qatar como país anfitrião provém de corrupção, de puro interesse económico. Os responsáveis por esta decisão mostram-se preocupar mais com o negócio no qual saiam a ganhar do que nas consequências das suas decisões. Estas foram tomadas por pessoas que sabiam que o Qatar não possuía estádios nem condições para suportar o maior evento desportivo a seguir aos jogos olímpicos. Os autores apresentam comportamento que comprovam as palavras de Marx “[…] a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens.” [1]

Sabendo a informação relatada, pessoalmente, torna-se difícil conseguir ver os jogos abstendo-me das diversas controvérsias que rodeiam a competição. Principalmente a forma como os trabalhadores são vistos como meras máquinas, como são explorados e como as grandes organizações mostram completo desprezo pelos direitos fundamentais e dignidade humana.

 

[1] Karl Marx (1993) «O Trabalho Alienado» in Manuscritos Económico Filosóficos. Lisboa: Ed. 70