O corpo, ultrapassando a carne e a funcionalidade biológica, é composto por um conjunto de inscrições culturais e de simbologia. Falando especificamente do feminino, perpetuaram-se características entendidas como femininas num processo no qual o corpo, a conduta e o gênero estariam irresistivelmente conectados a atributos como a sensualidade, ingenuidade, delicadeza, beleza e sujeição. Seriam compreendidos em perspetiva generalizadas e construídas gradualmente num sistema de codificação e de-codificação cultural.
A partir desta introdução proponho para este trabalho uma reflexão e comparação da mulher “Pin- up” da década de 60 com a mulher “moderna”. Usando como comparação um cartaz vintage da época com um cartaz publicitário que está atualmente afixado nas ruas de Lisboa em vários mupis publicitários e em campanha da marca Tezenis, a publicitar “lingerie” com uma modelo em pose que sugere erotismo. A empresa Tezenis tem por hábito afixar os cartazes na altura do natal e em locais estratégicos onde afluem grandes aglomerados de pessoas, neste caso as zonas de transporte público (metropolitano, terminais rodoviários e.t.c).
As Pin-Up eram modelos cujas imagens sensuais produzidas em grande escala exerceram um forte atrativo na cultura pop, as imagens podiam ser retiradas de revistas, jornais e também apareciam com frequência em calendários, os quais eram produzidos para serem pendurados ( Daí o nome “pin up”). O conceito do surgimento das pin-Ups seria supostamente um dos primeiros sinais de libertação feminina ao mostrar o poder do corpo e da sensualidade da mulher na cultura popular. No entanto, percebemos que a massificação dessa imagem deixou-nos antes uma estigmatização do papel da mulher na sociedade contemporânea e uma construção do corpo da mulher como objeto de consumo, dilema que, até aos dias de hoje continua a ser percepcionado.
Tanto nos pin-ups como no cartaz da Tezenis existe uma mulher, a pousar e a cumprir o seu papel, o de “ser aquilo que é fotografado” . Nenhuma delas está a fazer nada, estão ambas a ser as suas aparências” (1) no entanto, a segunda foi criada 62 anos mais tarde.
É importante frisar a falsa ideia de empoderamento feminino que existia na altura em que os pin-ups foram criados e industrializados. As mulheres dos Pin-Ups representavam as mulheres do sonho americano dos anos 60, tão capazes como os Homens para executar os mesmos trabalhos, mulheres emancipadas sexualmente, pelo menos era isso que quem produzia os cartazes pretendia que se acreditasse. Nos cartazes retratavam-se personagens femininas, muitas vezes com roupa de trabalho ( por exemplo uniforme), a pousar junto de um produto mas com roupa extremamente reveladora, irrealista, impraticável e acima de tudo sexualizante. Existe uma marcada erotização do corpo feminino nos limites da pornografia, que pode ser observado por meio de diversos parâmetros, seja pelo cabelo, pela pose, pelo corpo, vestuário, movimento corporal, expressão facial, movimento dos lábios e contato visual, ou ainda por meio do convite, mais ou menos explícito, ao “toque” de quem olha.
O que os pin-ups queriam mostrar realmente é que as mulheres “são aquilo que parecem, “ e aquilo que parecem é visto pelos olhos de um homem.” (2) ao colocar as mulheres ao lado de um produto para venda o objetivo do anúncio é apelar aos olhos do espectador ( este, masculino), e no caso do espectador feminino, este, sem se aperceber, é incentivado a ver-se a si mesmo através dos olhos do sexo oposto e a “dar sentido masculino a si mesmas e às suas relações sociais”. (3)
No anuncio da Tezenis conseguimos identificar as mesmas poses e o mesmo olhar presente nas Pin-ups, a mulher em ambos os cartazes faz uma expressão facial de quem foi apanhada de surpresa pelo espectador, ambas assumem uma posição de malícia e ao mesmo tempo de inocência e ingenuidade, continuando a perpetuar esta ideia de feminino.
Podemos dizer que desde os anos de 1960 até hoje, o impacto das pin-ups é visível no que toca a uma procura de um ideal de beleza, as Pin- up tal como o anúncio da Tezenis são apenas um dos casos de uma propaganda do “produto” que é vendido e que se transforma em desejo. Toda a tradição da construção da imagem idealizada da mulher começou com sexo oposto, por exemplo no renascimento, com a representação do “nude” na pintura e está enraizado no sexo feminino de tal forma que se torna inconsciente.
Para terminar deixo em baixo transcrito um dos discursos retirado do episódio 2 da série “ways of Seeing” de John Berger, é um discurso opinativo de uma das senhoras durante um debate que aconselho a ver e julgo fazer sentido para completar o pensamento que se aborda neste artigo.
“I know, as I suppose I’ve always know, but I became aware of it on this film, I have never consciously looked at myself in the mirror and seen myself as I am. I always see the image that I want, I know and my children notice it that if I make up my face, I put on a certain expression.
If I, from adolescence on, if I’ve seen myself naked in the mirror I have not thought of myself as naked, I have thought of myself as a nude, and I think this comes very largely from having being told around all the major art galleries and lessons you know, this is culture, this is beauty, the capital B and of course up to a point from advertising too but much more the painting thing, and that you…you think the female body is beautiful. I am a beautiful object, if not I have to do something about it. And therefore the painful part of the narcissistic thing is I think the feeling of inadequacy. Now this business of always posing in a mirror I think one does absolutely automatically and the result is it if you actually catch yourself in a mirror by chance, that’s not deliberately because you’re getting dressed or you had bath but because there’s one in the street you will catch yourself in a shop window, it’s a tremendous shock because you’ll suddenly see you as you are, which is windblown, untidy, badly dressed, tired and so on, you don’t see the pose at all and I think this is what happens to women. That they’re always trying to measure up to this erotic image that is projected”
link para consultar a imagem da publicidade da Tezenis:
https://images.app.goo.gl/pCSBauBPhQjbTE4AA
[1] John Fiske (1993) Introdução ao Estudo da Comunicação, Porto: Edições Asa, p. 239.
[2] Ibidem, p. 238.
[3] Ibidem, p. 233.
[4] John Berger (1972) Ways of seeing, Episode 2