quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O que perdemos

Cada vez que me encontro a mim mesma de ombros curvos e costas tortas, inclinada para a frente sob um pequeno ecrã que me pede constante atenção, e que tem sob mim o poder de me fazer sentir tanto em tão pouco. Cada vez que me encontro a mim mesma a evitar olhar para cima, para a realidade de uma vida citadina que é capaz de conter numa só imagem toda a discrepância de um estado social falhado – a pobreza de uns, a ostentação de outros. Cada vez que me encontro a olhar este pequeno ecrã para evitar dar espaço aos meus próprios pensamentos, sentimentos, às relações que requerem de mim atenção, emoções que precisam de expressão... sinto-me roubada. Sinto muitas coisas, mas entre elas, sinto-me roubada de algo que nunca tive, e que, no entanto, nunca foi a nenhum lado - a minha própria natureza. 


E encontro-me assim a romantizar uma vida primitiva, uma vida verdadeiramente animal, em que matava para comer porque essa era a única opção. Um tempo em que a única coisa que tinha a fazer era sobreviver. Um tempo em que podia buscar livremente prazer: sem constrangimentos, sem culpa, sem pensar em lucro, em produtividade, na minha própria comodificação. 

Sinto que entrei a meio de uma peça e me esqueceram de dar o guião. 

E a meio, acordo subitamente! Lembro-me que não escolhi estar nesta peça, que não quero dançar esta dança, que não quero representar, só quero ser e estar. 

 

Fomos os melhores a assegurar a nossa própria sobrevivência. Demos um aperto de mão e prometemos não matar. Somos seres evoluídos e dissemos ter saído do estado da natureza, mas a verdade é que nunca deixamos de estar. Vivemos ainda sob a lei do mais forte, só que agora o jogo está viciado. E eu vejo nos meus sonhos, a dormir e acordada, um mundo mais equilibrado. Vejo nesses sonhos a minha própria ilusão - a minha ideia de justiça não é a da natureza - o desespero que sinto é a consequência desta alienação. 


Alguns dizem que a virtude morreu, eu pergunto-me “será que alguma vez existiu?”... Será que nos esquecemos que somos apenas animais – sociais – mas animais ainda? O que queremos de facto é viver, ter uma família, uma refeição, um lugar seco onde dormir, e mais tarde morrer. Esquecemo-nos que de facto a vida pode(ria) ser simples assim.

 

Hoje, sonhos e ambições de grandiosidade e distinção desaparecem com a adolescência. Camuflagem é também uma estratégia de sobrevivência. Hoje, fujo às luzes artificias, aos espelhos, aos relógios e às responsabilidades extracurriculares para os quais não me inscrevi.

 

Hoje, o que me apazigua é olhar de frente a crueldade da natureza. É esta a natureza que procuro, sempre esteve aqui, diante de mim. Este é o desenrolar natural das coisas. A maior parte dos animais morre uma morte cruel: ninguém os enrola num pano de linho, chora a sua morte e os recorda de vez quando durante os vinte anos seguintes. Vejam só a minha sorte! Por vezes ainda sinto inveja da anonimidade do restante mundo animal, mas conforta-me o esquecimento que me espera, cariz da libertação de todo o ser mortal.