Numa aula de filosofia, após a
visualização de um filme chamado "Matrix", procedemos à análise do
mesmo, maioritariamente relacionada com os tópicos dados em aula.
No
entanto, depois de ter revisto o filme apercebi-me de aspetos que não foram
debatidos previamente, enquadrados na problemática da cultura visual,
pretendendo abordá-los assim na minha análise.
Este filme
de ficção científica baseia-se essencialmente num mundo gerado por uma
simulação neural-interativa, que é controlada
pelas máquinas. Tudo isto se deve ao avanço tecnológico, especialmente na área
da inteligência artificial, dando à tecnologia poder suficiente para dominar e
controlar a espécie humana.
Com a
destruição ambiental e poluição, a energia solar que era usada como fonte
primária para o funcionamento destas máquinas deixa de ser possível. Assim, a
tecnologia apodera-se do ser humano e passa a usá-lo como fonte de energia, já
que este produz mais eletricidade do que uma pilha de 120V. Criando assim um
sistema de cultivo humano, pois estes já não nascem, são meramente produzidos.
Esta ideia
de ser humano como produto e escravo, está ligada à ideia de Karl Marx,
mencionada no “O Trabalho Alienado”. Pois nesta simulação, em que todos são produzidos, são cegamente
levados a crer que o que vivem é de facto real e por isso alimentam essa
realidade e criam produtos nela, valorizando o mundo das coisas e por isso
automaticamente desvalorizando-se a si próprios.
É neste mesmo contexto que ambos o produto que o trabalhador
cria e o trabalhador são mercadorias. Pois à medida que o ser humano contribui
para o sistema, torna-se não só parte dele, como nele próprio, passando a ser o
sistema e contribuindo para que este tenha continuidade em si.
É neste sistema de escravidão e controlo visto no filme, que
as máquinas capacitam o próprio ser humano de existir, que por sua vez existe
primeiro como trabalhador que produz outras máquinas e só depois como sujeito
físico.
O filme baseia-se numa personagem principal, o Neo, que vai
ao longo do mesmo descobrindo o que é a matrix. Esta é
descrita várias vezes como:
“The matrix is everywhere, all around us”
“You can see it when you look at your window or when
you turn on your television, you can feel it when you go to work, when you go
to church, when you pay your taxes. It is the world that has been pulled over
your eyes to blind you from the truth”
“The matrix is a computer-generated dream world built
to keep us under control in order to change the human being into a
battery.”
Esta oposição entre a “matrix” (simulação/mundo dos sonhos) e
o mundo real demonstra o paralelismo entre a cultura e a natureza.
O ser humano é portanto um ser
simbólico, pois vive de simbolismos num mundo de sensações, estando a sua
existência associada a uma posição social, um status, poder econômico… vivendo
muito consciente da sua realidade sociocultural.
Com uma
linguagem natural criada a partir de um código com o qual se comunica, o ser
humano difere totalmente dos outros seres vivos. Carregando a sua capacidade
simbólica como um fardo, pois essa é precisamente a razão da sua infelicidade
quotidiana, traduzindo-se apenas num ser que sofre e trabalha.
É exatamente essa a razão que leva o
Neo a escolher a pílula vermelha, quando lhe é dada a escolha de saber a
verdade pelo Morpheus. É a necessidade de abandonar o mundo simbólico e a
ilusão que ele oferece, escolhendo assim aproximar-se da natureza, da sua
verdadeira origem. Pois antes de sermos cultura, ou seja, parte da matrix,
somos natureza, o ser humano sem o simbolismo, antes da idade do espelho. A
cultura afasta-nos do que somos realmente, criando uma relação separada entre o
ser humano simbólico e o ser natural.
Contudo, uma vez inseridos no
simbólico é impossível renunciá-lo, e o mesmo acontece com o Neo quando
descobre saber a verdade e afastar-se da ilusão. Mesmo tentando voltar para o
seu “eu da natureza”, nunca vai poder apagar tudo o que sabe e tudo o que
viveu. O simbólico permanece sempre, tal como a separação entre o homem e o
mundo, alienado de si mesmo e dos outros homens.
É assim neste contexto que pode ser
relacionado o conceito de ideologia descrito por Karl Marx, uma projeção
simbólica que nos é dada como verdadeira imposta pela classe dominante numa
sociedade, que serve para manter a sua posição de dominância. Pois tal como é
visto ao longo do filme, a maioria das pessoas não desconfia nem questiona a verdade
e a pequena porção de pessoas que o faz e demonstra resistência, é alvo de
aniquilação por parte dos agentes que são sistemas informáticos.