quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Numa aula de filosofia

 

Numa aula de filosofia, após a visualização de um filme chamado "Matrix", procedemos à análise do mesmo, maioritariamente relacionada com os tópicos dados em aula.

No entanto, depois de ter revisto o filme apercebi-me de aspetos que não foram debatidos previamente, enquadrados na problemática da cultura visual, pretendendo abordá-los assim na minha análise.

Este filme de ficção científica baseia-se essencialmente num mundo gerado por uma simulação neural-interativa, que é controlada pelas máquinas. Tudo isto se deve ao avanço tecnológico, especialmente na área da inteligência artificial, dando à tecnologia poder suficiente para dominar e controlar a espécie humana.

Com a destruição ambiental e poluição, a energia solar que era usada como fonte primária para o funcionamento destas máquinas deixa de ser possível. Assim, a tecnologia apodera-se do ser humano e passa a usá-lo como fonte de energia, já que este produz mais eletricidade do que uma pilha de 120V. Criando assim um sistema de cultivo humano, pois estes já não nascem, são meramente produzidos.

Esta ideia de ser humano como produto e escravo, está ligada à ideia de Karl Marx, mencionada no O Trabalho Alienado”. Pois nesta simulação, em que todos são produzidos, são cegamente levados a crer que o que vivem é de facto real e por isso alimentam essa realidade e criam produtos nela, valorizando o mundo das coisas e por isso automaticamente desvalorizando-se a si próprios.

É neste mesmo contexto que ambos o produto que o trabalhador cria e o trabalhador são mercadorias. Pois à medida que o ser humano contribui para o sistema, torna-se não só parte dele, como nele próprio, passando a ser o sistema e contribuindo para que este tenha continuidade em si.

É neste sistema de escravidão e controlo visto no filme, que as máquinas capacitam o próprio ser humano de existir, que por sua vez existe primeiro como trabalhador que produz outras máquinas e só depois como sujeito físico.

O filme baseia-se numa personagem principal, o Neo, que vai ao longo do mesmo descobrindo o que é a matrix. Esta é descrita várias vezes como:

 

“The matrix is everywhere, all around us”

 

“You can see it when you look at your window or when you turn on your television, you can feel it when you go to work, when you go to church, when you pay your taxes. It is the world that has been pulled over your eyes to blind you from the truth”

 

“The matrix is a computer-generated dream world built to keep us under control in order to change the human being into a battery.” 

         

Esta oposição entre a “matrix” (simulação/mundo dos sonhos) e o mundo real demonstra o paralelismo entre a cultura e a natureza.

          O ser humano é portanto um ser simbólico, pois vive de simbolismos num mundo de sensações, estando a sua existência associada a uma posição social, um status, poder econômico… vivendo muito consciente da sua realidade sociocultural.

Com uma linguagem natural criada a partir de um código com o qual se comunica, o ser humano difere totalmente dos outros seres vivos. Carregando a sua capacidade simbólica como um fardo, pois essa é precisamente a razão da sua infelicidade quotidiana, traduzindo-se apenas num ser que sofre e trabalha.

          É exatamente essa a razão que leva o Neo a escolher a pílula vermelha, quando lhe é dada a escolha de saber a verdade pelo Morpheus. É a necessidade de abandonar o mundo simbólico e a ilusão que ele oferece, escolhendo assim aproximar-se da natureza, da sua verdadeira origem. Pois antes de sermos cultura, ou seja, parte da matrix, somos natureza, o ser humano sem o simbolismo, antes da idade do espelho. A cultura afasta-nos do que somos realmente, criando uma relação separada entre o ser humano simbólico e o ser natural.

          Contudo, uma vez inseridos no simbólico é impossível renunciá-lo, e o mesmo acontece com o Neo quando descobre saber a verdade e afastar-se da ilusão. Mesmo tentando voltar para o seu “eu da natureza”, nunca vai poder apagar tudo o que sabe e tudo o que viveu. O simbólico permanece sempre, tal como a separação entre o homem e o mundo, alienado de si mesmo e dos outros homens.

          É assim neste contexto que pode ser relacionado o conceito de ideologia descrito por Karl Marx, uma projeção simbólica que nos é dada como verdadeira imposta pela classe dominante numa sociedade, que serve para manter a sua posição de dominância. Pois tal como é visto ao longo do filme, a maioria das pessoas não desconfia nem questiona a verdade e a pequena porção de pessoas que o faz e demonstra resistência, é alvo de aniquilação por parte dos agentes que são sistemas informáticos.