quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Numa conversa entre colegas

 Numa conversa entre colegas de universidade, mencionei o facto de ser muçulmana shia ismaili, um de muitos outros ramos que existem no islão. Calculei que como vivo num país maioritariamente cristão, não existisse muito conhecimento relativamente ao islão e ao que é ser muçulmana, especificamente de um ramo menos conhecido. Por isso passei a explicar os pontos fundamentais, especialmente os que me diferenciam como muçulmana shia ismaili dos sunis, o maior e mais conhecido ramo dentro do islão.

            Após a minha explicação, fui deparada com algumas questões, uma das quais feita por um colega que sendo muçulmano suni, me fez a seguinte questão:

“Se és muçulmana, porque é que não usas o hijab?”.

            O hijab (em árabe حجاب) tem como origem da palavra, os significados “cobertura” “ocultar olhares” e é descrito no quran em alguns versos, tais como:

 

“And say to the believing women that they should lower their gaze and guard their modesty; that they should not display their beauty and ornaments except what must ordinarily appear thereof; that they should draw their veils over their bosoms and not display their beauty except to their husbands, their fathers… and that they should not strike their feet in order to draw attention to their hidden ornaments. And O you Believers, turn you all together towards Allah, that you may attain Bliss.” (Quran 24:31).

 

“O Prophet! Tell your wives and your daughters and the women of the believers to draw their cloaks (veils) all over their bodies (i.e. screen themselves completely except the eyes or one eye to see the way). That will be better, that they should be known (as free respectable women) so as not to be annoyed. And Allah is Ever Oft-Forgiving, Most Merciful.” [al-Ahzab 33:59]

 

Através destes versos, conseguimos perceber melhor o seu significado. O hijab constitui assim um elemento de vestuário que tem como finalidade ser usado pelas raparigas e mulheres que permite a modéstia, a privacidade, ou seja, neste caso só os homens com uma relação familiar com a mulher é que poderão vê la sem o hijab e que por isso, a sua beleza deve ser resguardada para todos os restantes que não façam parte desta categoria. O hijab permite nos atribuir a uma mulher o respeito e faz com que, por não ser possível ver o cabelo, um pouco da testa (dependendo também do tipo de véu que se usa: burka, niqab, chador, al-amira, hijab, shayla) se tornem menos “atraentes” do ponto de vista masculino e por isso, com menores probabilidades de serem molestadas.

Para mim como shia ismaili, existe dentro deste tópico um grande afastamento de pensamento. É de relevante importância mencionar que o uso deste não é obrigatório, apenas recomendado, o que muitas vezes não é dito e esquecido dentro dos países muçulmanos onde existe uma restrição do pensamento livre e a escolha. O uso do hijab trata-se fundamentalmente de uma escolha que inclui estritamente o sujeito feminino e Deus/Allah.

No entanto, há algo bastante evidente retirando todas as questões de fé e crença na explicação do uso do hijab para a mulher.

A primeira questão a colocar é: “Porque é que só as mulheres muçulmanas sunitas usam o hijab e os homens não?”

            Para responder a esta questão, irei relacionar o segundo episódio de “Ways of Seeing”, de John Berger de 1972 e uma capa da revista Seventeen exposta no livro de John Fiske “Introdução ao estudo da comunicação” de 1993.

 

Começando por mencionar a revista, deparamos-nos com fotos de várias mulheres, em que no canto esquerdo em cima e mesmo na foto abaixo estão duas mulheres a sorrir e a fazerem expressões que mostram uma certa felicidade e diversão, abaixo no mesmo lado está uma mulher séria e do seu lado direito, uma outra mulher, cujo rosto não conseguimos ver. Em todas as fotos, as mulheres estão apenas a mostrar a sua expressão, a transpô-la para o espectador, até mesmo naquela em que não conseguimos ver o rosto.

As mulheres estão dispostas para serem vistas, vistas exatamente pela aparência que levam consigo para a câmara, não estão a ser avaliadas por outra competência senão pela sua beleza. Mesmo que através da fotografia seja mais complicado ir para além da estética, a revista em si, não foge disso. Poderia ter sido colocada a foto de uma mulher com um breve título sobre o facto de ter ganho um prémio em investigação em qualquer uma das áreas científicas ou apresentar se um livro escrito por uma mulher, entre outros exemplos. No entanto, a revista exclui essas possibilidades, quando olhamos para o todo e para o particular dos elementos que estão nela.

A mulher constitui um objeto, tanto para os homens, como para as mulheres que compram a revista. A mulher que compra a revista tem dois pontos de vista, que podem ocorrer simultaneamente, o primeiro poderia ser a comparação entre ela e a mulher que observa, pensando sobretudo num ponto de vista negativo sobre o que lhe falta em si e que existe na pessoa que vê. O segundo, será criticar a mulher que vê, por exatamente olhar para a mulher como um homem e não como igual entre ambas.

A própria mulher adapta a perspetiva do homem, como se naquele momento deixasse de ser o que é e não soubesse o que é ser se mulher, o que é em si mesma. Passando a criticar alguém que lhe é como igual, como um objeto puramente apreciativo. É também neste sentido que John Berger descreve o que acontece na percepção dos homens para as mulheres. As mulheres são em si um objeto para elas mesmas e para os homens, pois mesmo quando pegam no espelho, olham para si como um homem olharia para elas. O homem que no fundo está como mestre desta manipulação, nunca é olhado com este olhar e faz com que todos os homens e mesmo as mulheres, pensem que a mulher se olha no espelho por vaidade, quando a tornaram no próprio centro do olhar.

Voltando assim à minha pergunta inicial, conseguimos perceber que a razão pela qual a mulher usa o hijab é devido ao homem e ao facto de estar constantemente a ser observada e ser alvo de abusos.

O homem visto na genesis é o agente de Deus e a mulher a subordinada ao homem. Tornando a partir daí a concepção cultural do papel da mulher na sociedade e da impossibilidade do afastamento do seu pecado inicial e por isso tendo consequências futuras irremediáveis

A própria mulher quando é subjugada ao hijab, pode sofrer uma questão de identidade pessoal, em comparação com outras mulheres, especialmente com a maioria que não o usa. Mas as suas percepções de si deixam de ser irrelevantes no mundo onde o olhar principal é um olhar masculino coletivo. Daí a necessidade do islão de criar um elemento que as pudesse proteger desse mesmo olhar, do olhar de um Adão coletivo que não fez um primeiro erro, mas que deu seguimento aos restantes.

Olhando num ponto de vista completamente oposto, poderei dizer que o próprio hijab “chama a atenção” num mundo que se tornou estandardizado pelos costumes europeus. E por isso, levando consigo para as mulheres que o usam, mais um aspecto de crítica por outras mulheres e homens do que proteção e modéstia, devido a uma não compreensão do significado do mesmo.

Um outro ponto principal de relevância a ser mencionado é o castigo das mulheres quando decidem não usar o hijab. É vista uma atitude plenamente severa, mas que é encarada muitas vezes pelos homens como "justiceiro de Deus na Terra” por punir o que não está no seu direito.

Posso concluir assim, que um objeto será sempre motivo de olhares, por mais escolhas que sejam ou não feitas. De certo modo, não cabe a um objeto decidir se pode ser observado, pois a partir do momento em que é criado passa a poder sê-lo. Assim, creio que por mais tentativas que as mulheres possam ter em tentar mudar a percepção do olhar, estas foram marcadas por uma história que conta o início dos tempos e mesmo que tal história não seja aceite por muitos, nunca deixa de ser contada, pelo menos da forma como é feita.