sexta-feira, 17 de novembro de 2023

A lavagem desportiva potenciada pelos media

 Todos estamos cientes do ressurgimento da liga profissional de futebol saudita. Desde a transferência de Cristiano Ronaldo por valores contratuais ridiculamente altos, foram inúmeros os jogadores de renome que decidiram seguir o mesmo caminho. Trata-se de um investimento por parte do próprio país que visa "desenvolver o futebol", com planos para organizar o campeonato mundial de 2030.

Na realidade, não é mais do que uma forma de limpar a imagem de um país que nenhuma consideração tem pelos direitos humanos, e que funciona. Não só são pagos os jogadores para elogiar e defender uma nação em público, mas o facto de atraírem jogadores conhecidos levou a que até os canais portugueses investissem nos direitos televisivos da liga.

Tal como analisado no texto "O pequeno Bichon", de Barthes, é criada uma imagem de uma cultura falsa, e este não é o único, nem o primeiro caso. O futebol e outros desportos como Fórmula 1, têm vindo a dinamizar atividades em países cujas práticas e ideiais menosprezam os direitos dos seus e de outros cidadãos, em troca de verbas milionárias. Este fenómeno tem um nome, "sportswashing" e verifica-se até no meio que nos rodeia.

A organização do campeonato mundial de 2022, no Qatar, resultou na morte e exploração de milhares de trabalhadores, coberto pela imagem de um país limpo, civilizado, e respeitador da demais culturas. Ora a verdade é que o Qatar não só é um país extremamente opressor, como dissuadiu os media e encobriu a realidade da classe baixa e dos povos oprimidos que aí residem. Não eram divulgadas as imagens das paredes contruídas para esconder os bairros de lata, nem lhes permitiam falar dos casos dos homens de outros países que eram forçados a ficar a trabalhar a custo-zero, sem possibilidade de voltar.
A minha namorada trabalhou como hospedeira na organização deste gigante desportivo. Durante a sua estadia, todos os locais tentavam tratar os milhares de visitantes como se fossem nativos, presenteavam-nos com vários brindes e jantares em sítios luxuosos, festas com celebridades convidadas para dar credibilidade à causa, etc.E assim se passou um mês e meio sem ver um único pobre, pedinte ou manifestação contra o regime.

A afluência ao evento foi tão bem sucessedida, que Doha passou a ser um destino turístico ainda mais desejado e o país continua a lucrar com isso, e como este, há vários outros casos no futebol que têm o mesmo resultado. O Qatar e o seu regime saíram impunes, porque até as pessoas que visitaram o país não puderam ter razão de queixa, já que foram feitos todos os esforços para esconder a realidade. A irracionalidade aliada à afição nos desportos, permite este tipo de situações, e que como os media lucram com isso, perpetuam ainda mais este fenómeno.
O bom senso falha quando se trata de desporto. Talvez se os media utilizassem os meios que têm para sensibilizar as pessoas, teriam mais consciência e não dariam tempo de antena a este tipo de regime, mas quando joga a seleção...