sábado, 11 de novembro de 2023

A verdade no plástico

    No outro dia, falamos na aula do texto “Plástico” de Roland Barthes, e uma das partes chamou a minha atenção. Barthes diz o seguinte: “Mas o que mais trai o plástico é o som que ele emite, oco e opaco ao mesmo tempo; o seu ruído derrota-o; assim como as suas cores, pois só parece fixar as mais químicas; do amarelo, do vermelho e do verde retém apenas o estado agressivo. Usa as cores como se fossem apenas nomes, capazes, unicamente, de exibir conceitos de cores.” As suas palavras ressoaram em mim por ajudarem a descrever um pensamento que tenho recorrentemente. 

     Quando me vejo defronte de um campo, verifico, sem exceção, como tenho preferência ao verde da erva ao amanhecer ou ao entardecer. Sempre me pareceu que as cores do meio dia, debaixo de um céu sem nuvens, fossem demasiado agressivas aos olhos, que o verde da folhagem é demasiado vibrante; de uma qualidade plástica, até. Mas ao final da tarde, quando o sol incendeia dourado o campo, o verde assume um tom alaranjado e tudo se torna mais suave, mais fácil de ser observado. 


    No texto, o principal objetivo de Barthes não é apontar a falsidade do plástico, mas sim desmascará-lo, fazendo menção à sua qualidade enganadora. Também eu, que admiro as cores sob a luz característica dos limites do dia, me questionei se eu não estaria a fixar-me em algo que não é real, que talvez eu não admirasse a cor verde em si. Pensei nos efeitos do sol quando rasteiro como se se tratasse da adição de um filtro a uma fotografia, e que a verdadeira essência das cores deverá residir na observação delas sob uma luz branca e pura, sem suplementos de refrações coloridas. Mas isto, claro está, não é correto. Ao contrário do plástico, que atenta na imitação do real, a natureza é a realidade. Ela nada tenta imitar, ela é pela única razão de ser, e isso devia ser, à partida, óbvio. Logo, o verde é autêntico ao meio dia em ponto, mas é também ele genuíno debaixo dos raios de sol que furam cor de laranja as nuvens ao amanhecer.


    Mas suponho que este tipo de pensamentos seja comum. Tal como Roland Barthes que procurava expor a verdade do plástico, e eu que, de maneira diferente, me questionei sobre a verdadeira cor do natural, a humanidade, como coletivo que perdura, sempre procurou a verdade das coisas: quer seja a verdade encontrada de uma forma racional (por exemplo, na resposta a perguntas de carácter científico); ou, e principalmente, a verdade que procuramos, de uma forma mais abstrata, na culminação de algo maior (no como e no porquê de Tudo existir). Quase como se as pequenas respostas, que vamos obtendo através de equações complicadas e de análises complexas, fizessem parte de uma entidade única e absoluta, que contém em si todas as respostas e segredos do mundo. A Verdade, o geist de Hegel, a Máquina do Mundo, Deus: penso serem todos sinónimos.


    Porque somos humanos e nos é inerente, passamos a vida à procura destes pedaços de verdade: em nós próprios, nos outros e no que nos rodeia. O primitivo quem sou eu? (Acho que nunca seremos capazes de chegar a esse eu, que nos é impossível ter acesso a ele de uma forma una e não fragmentada e, ao mesmo tempo, ele está sempre presente, embora nos seja impossível de o alcançar, apenas de o sentir e agir em sua conformidade. E se não somos capazes de possuir a verdade de nós mesmos, quiçá a dos outros ou do que nos é exterior?); ou o porquê das ondas no mar nunca cessarem. Cavamos buracos, construímos aviões, erguemos civilizações. Na verdade, queremos fazermo-nos Deus. 


    O plástico ou a observação de um campo às cinco da tarde. Acho que não é possível chegar à verdade - ao caroço - de nada neste mundo. Porque o plástico nunca tentou esconder nada e ser algo para além do que realmente é, fomos nós, fomos nós! E fomos nós que fizemos dele destruição. E se o colocarmos debaixo da luz dourada que cobre o mundo num final de tarde de verão, também as suas cores serão mais agradáveis. Como a erva, que é verde escura e alaranjada e dourada e acinzentada. 


    Não acredito que consigamos chegar à verdade de nada, mas aquilo que vemos, os sentimentos que nos pertencem, as relações que criamos; tudo faz parte da realidade que se encontra ao nosso alcance, e nós continuamos e continuaremos à busca dessa Verdade, e nunca seremos mais que humanos.