De um
lado da rua, estava um homem inanimado estendido no passeio a ser socorrido
pelo INEM. Junto dele estavam algumas pessoas, apenas uma jovem chorava, deduzi que ou conhecesse o homem ou fosse quem
tinha presenciado toda aquela cena até, eventualmente, ter ligado para o 112. Sentia-se uma atmosfera pesada onde o silencio parecia
reinar, numa parte da cidade, normalmente, atarefada por aquela hora do dia. Não querendo ser absorvida naquela situação, decidi atravessar a rua e
afastar-me daquilo que acabara de ver.
Do
outro lado da rua, encontrei reunidas várias pessoas que pareciam criar uma
espécie de plateia, onde umas comentavam com o vizinho do lado as informações
que tinham conseguido apurar e outras que quase se atropelavam
para ter uma melhor vista da tragédia que se desenrolava perante os seus
olhares morbidamente curiosos. Pareceu-me tudo aquilo um pequeno circo de
horrores, onde as estrelas da companhia eram a dor e a tragédia que se abatiam sobre aquele pobre homem que teve a infelicidade de se sentir mal.
Comum
aos dois lados, eram aqueles que, tal como eu, se encontravam de passagem, mas
que escolhiam não olhar e ignorar a situação passando ao lado de tudo aquilo sem
demonstrar a mínima emoção. Será isto por respeito ou puro desinteresse pelo
outro? Pareceu-me ser o pináculo da alienação do homem perante o outro.
Tornamo-nos tão absorvidos na nossa própria existência, que o que nos rodeia, e
especialmente, aqueles que nos rodeiam e nos são desconhecidos, não despertam
alguma empatia em nós. Evoluímos comos seres “sociais” que conseguem coexistir
ao lado de alguém que sofre, ignorando a sua presença e prosseguindo com a
nossa vida.
Presenciar
este “fenómeno” deixou-me desconfortável comigo mesma, visto que antes que o
pudesse evitar, também eu estava ali a tentar desvendar o grande mistério que
ocorria no outro lado da rua (do qual, há uns meros minutos atrás, tinha
decidido escapar). Penso que estivéssemos todos, naquela rua, naquele momento,
a sofrer as consequências do triunfo da aliança entre a violência como forma de
entretenimento e a extrema alienação face ao outro. Por
um lado, vejo como algo, quase instintivo, o despertar da nossa atenção face a
algo que ofereça sensações mais intensas. O sensacionalismo com o qual
coabitamos no espaço cultural treinou-nos exatamente para isso, uma vez que
parecemos viver atrás das emoções intensas que tanto a violência como a
tragédia despoletam. Temos a ideia de que já vimos tudo o que havia para ver. Nada nos espanta ou capta o nosso interesse, porque não é emocionante o
suficiente para o fazer, restam-nos apenas as atrocidades, desgraças, tragédia
e mostras de violência, para realmente sentir algo de significativo que nos
choque e que sobretudo nos entretenha por um espaço de tempo.
No fundo, tudo o que queremos é ser entretidos, estamos a habituados a uma cultura onde somos bombardeados com entretenimento por todos os lados e quando tudo nos começa a parecer banal, começamos a envergar por caminhos sinuosos, chegando ao ponto onde, ficar parados na rua a olhar para um homem que desmaiou, nos parece algo emocionante que marca o nosso dia, não pela magoa ou empatia que sentimos, mas pela espetacularidade associada à situação, ao aparato e à semelhança da situação com imagens que vemos todos os dias na televisão. De repente, torna-se em algo especial e que nos dá um certo orgulho distorcido de ter presenciado.
Refleti ainda um pouco sobre o tema, na tentativa de chegar a uma resposta a qual dos intervenientes desta situação agiu corretamente. Ou seja, estaria a moralidade do lado dos que que ficam e exploram a dor do outro, de forma fria e insensível, como entretenimento? Ou aqueles que passam e ignoram a dor do outro?
Contudo, cheguei a um certo impasse, visto que numa situação onde existe um homem caído no chão, uma plateia de espectadores cegos pela sua fome de serem entretidos por algo emocionalmente violento e outros que passam e fingem não ver, não é possível dizer quem age de forma moralmente mais correta, porque, de certo modo, ninguém o faz. No entanto, não se pode culpar alguém por ter um dos comportamentos, visto que estamos tão inseridos nesta cultura alienada e cada vez mais apoiada no sensacionalismo e na violência, que o nosso modo de agir é regido por uma ideologia à qual que não temos forma de escapar, especialmente, porque não nos é evidente e não sentimos a sua influência.
