terça-feira, 25 de novembro de 2025

ALGO QUE EU NÃO ESCOLHI

 Para mim, ser gay é a pior coisa que pode acontecer.

Em vários momentos, senti que ser gay era menos uma característica minha e mais uma condenação. E a descoberta, em vez de libertadora, foi apenas super solitária, confusa e preenchida por uma sensação constante de não-pertencimento.

Cresci rodeado de comentários, de piadas, de observações sobre a minha forma de ser. A minha personalidade sempre foi encaixada num estereótipo, muito antes de eu entender o que realmente sentia. Na altura não percebia e acreditava que isso não me afetava, mas cada comentário deixou marcas, fazendo-me genuinamente acreditar, de forma forçosa, durante vários anos, que eu podia ser hétero. Quase como se esse fosse o caminho mais seguro.

Mesmo quando finalmente reconheci que era homossexual, o processo não se tornou mais simples. Pelo contrário, tornou-se ainda mais solitário. Ninguém á minha volta passava pelo mesmo. Os primeiros afetos surgiram como impossibilidades: rapazes MUITO inalcançáveis, amores MUITO improváveis e um silêncio que me acompanhava de forma diária. Durante muito tempo, achei que nunca iria encontrar alguém com quem pudesse partilhar essa experiência de forma verdadeira.

Também tive dificuldade em sentir-me parte da comunidade gay. Em vez de acolhimento, encontrei um ambiente marcado pelo descartável, por relações rápidas e relações que raramente ultrapassavam o superficial. Acabei por entrar nesse meio, pois parecia-me ser a única forma de ter algum relacionamento correspondido, mas, em vez disso, fiquei apenas frustrado e enojado. Foi como se a minha identidade estivesse sempre a ser moldada por fatores externos: ora pela reprovação dos meus pais, ora pelas expectativas sociais, ora pela própria cultura que circunda a comunidade.

E é curioso perceber como a sexualidade nunca é apenas íntima. Ela é social, política, pública, disciplinada. É regulada por normas invisíveis que definem o que é aceitável, desejável e reconhecível. Muitas vezes, senti que não tive espaço para descobrir quem eu era apenas para reagir ao que o mundo me dizia que eu devia ser. E isso é algo realmente péssimo, pois apesar de ter sido um dos períodos mais felizes da minha vida, foi também o mais desesperador, pois a única coisa que eu queria era ser amado, e parecia impossível.

Hoje, apesar de assumir a minha identidade aos meus amigos e ALGUNS familiares, ainda carrego cicatrizes deste desenvolvimento. E, honestamente, se pudesse escolher, talvez tivesse escolhido outro caminho referente á minha sexualidade. Não por vergonha, mas pelo cansaço de ter vivido tantas batalhas interiores e exteriores apenas para existir.

No entanto, começo a compreender que a sexualidade não é uma sentença, mas algo muito mais profundo que infelizmente envolve o mundo em que escolhemos viver. Algo cheio de camadas: pessoais, familiares, sociais e históricas. Reconhecer isso não apaga a dor, mas ajuda de certa forma a perceber que não nasceu dentro de mim, nasceu do mundo.

E é talvez nesse entendimento que começa, lentamente, algum tipo de liberdade.