segunda-feira, 10 de novembro de 2025

As mãos e o ecrã

 Hoje dei por mim a pensar em como passo horas ao telemóvel. Deslizar o ecrã para cima, responder a mensagens, ver videos, partilhar coisas. Tudo se mistura e, por vezes, nem percebo bem o que estou a realmente ver. É apenas o hábito de estar ali, como ecrã na mão.

Há momentos em que sinto que o telemóvel controla mais o meu tempo do que eu própria, e fico presa numa rotina de abrir e fechar apps sem perceber bem o quanto isso me afasta do mundo real. Penso muitas vezes nisto, nessa sensação de estar ligada a tudo, mas ao mesmo tempo meio desligada do que está à minha volta. É estranho perceber que quanto mais o ecrã me mostra o mundo, menos eu o vivo de verdade.

Quando penso nisso, lembro-me daquela ideia de que às vezes o ser humano cria coisas que acabam por o dominar. É um bocado o que o Marx falava, não tanto sobre telemóveis, claro, mas sobre como podemos acabar presos dentro do que nós próprios construímos. No fundo, é como se o telemóvel fosse uma nova versão disso, uma criação nossa que já nos ultrapassou. Passa a ser ele a marcar o ritmo, a decidir onde olhamos, o que vemos e até quanto tempo ficamos ali.

O Marx falava dessa inversão das coisas, quando aquilo que é produzido pelo homem ganha vida própria e o ser humano perde um pouco da sua. E é impossível não ver isso no ecrã, pois parece que nós estamos cada vez mais dentro de uma espécie de “realidade virada do avesso”, em que tudo é imagem, reflexo, luz.

No fundo, é como se as minhas mãos estivessem sempre ocupadas, mas raramente a fazer algo que realmente me aproxima do que é real. Fico ali, a olhar para um reflexo do mundo, e às vezes sinto que esse reflexo se tornou mais forte do que o próprio mundo