segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Clockwork Orange de Stanley Kubrick

Encontrava-me perdido do que deveria escrever para este comentário até que assisti Clockwork Orange de Stanley Kubrick e aí encontrei a minha vontade do que redigir.  Inicialmente achei-o apenas perturbador e violento, um retrato exagerado da delinquência juvenil, embora tentasse descobrir algo mais do que aquela violência que me apresentavam à frente. Porém após rever o que mais me impressiona é a sua lucidez em revelar o quanto os nossos valores culturais e morais são arbitrários, mutáveis e construídos.

O que Kubrick mostra é que a linha entre o belo e o grotesco, o humano e o desumano, é tão instável quanto o gosto ou a moda. Alex, o protagonista, move-se entre extremos de apreciar Beethoven e ao mesmo tempo comete atos de violência brutal, expondo a arbitrariedade das associações culturais que fazemos entre arte, ética e sensibilidade. Na cultura o seu significado é instável: muda conforme o contexto e o olhar.

O tratamento Ludovico, ao condicionar Alex a sentir repulsa perante a música e o prazer, torna-se uma metáfora dessa manipulação simbólica. Mostra que o comportamento humano pode ser reconfigurado através da associação arbitrária entre signos, sons, imagens e sobretudo emoções, descontruindo a ilusão de que os nossos valores são naturais ou universais.

Reconhecer essa arbitrariedade é compreender que a moral e o gosto, tal como a estética ou o comportamento, são construções culturais. O que Kubrick nos apresenta é um espelho desconfortável: se tudo o que julgamos estável é apenas  uma mera convenção, então a verdadeira liberdade talvez resida em reconhecer essa instabilidade e escolher, conscientemente, o modo como queremos ver, sentir e agir dentro dela.