Há um fenómeno comum a todos os que já visitaram um museu, em que o nosso olhar acontece unicamente pelo telemóvel. O gesto é quase automático, tira-se uma foto. Porquê?
Em grandes museus como por exemplo do Louvre e com a Mona Lisa de Da Vinci, multidões rodeiam uma pintura para tirar uma fotografia mas nem sequer há oportunidade de ter uma relação com a obra. Neste contexto esta torna-se numa comodidade, para que se consuma, para tê-la e reproduzi-la.
Existe então um declínio dos sentidos físicos e “espirituais” da arte. Marx já dizia, nos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844 que o capitalismo reduz todos os sentidos ao simples sentido de ter, que o ser humano, reduzido à condição de proprietário, só reconhece um modo de relação com o mundo, a posse. O olhar deixa de ser uma janela para o mundo sensorial e passa a ser uma ferramenta de aquisição.
É precisamente esta expansão da alienação a toda a vida social que Guy Debord descreve na Sociedade do Espetáculo. O espetáculo, neste caso, não designa a cultura de massas nem os meios de comunicação, mas a forma final da alienação sob o capitalismo: a dominação generalizada da mercadoria, em que toda a relação entre pessoas é mediada por representações. O espetáculo é, como Debord escreve, “um relatório social entre pessoas, mediado por imagens”.
Na sociedade do espetáculo, o que Marx observava no trabalho, estende-se a toda a existência. Já não somos apenas alienados do que produzimos, mas também do que percebemos e sentimos. O mundo sensível é projetado diante de nós como algo exterior, e o sujeito, privado da sua própria atividade, transforma-se em espectador da sua vida.
O ato de ver torna-se, por sua vez, num trabalho passivo em que o sujeito observa, mas não age. O espetáculo naturaliza a separação do indivíduo ao seu poder criador.
Observar uma obra, nesse contexto, é uma forma de reconhecer-se no espetáculo: o sujeito vê-se a si próprio a ver. A fotografia da obra é o vestígio dessa dupla alienação, do mundo e de si mesmo. Ao captar a imagem, o indivíduo transforma o sensível numa comodidade, o vivido numa representação. O espetáculo é, portanto, o ponto máximo da alienação marxista, o momento em que a consciência humana já só se relaciona com o real por intermédio das suas próprias imagens.
O ato de fotografar uma obra exprime, assim, a alienação estética no seu grau mais puro. A experiência transforma-se, afirmando-se como presença mediada por mercadorias.