segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Gadgets e a ilusão do indispensável

     É impossível passar um dia sem ver algum tipo de anúncio sobre tecnologia: o novo smartphone que “vai mudar a sua vida”, os headphones que prometem uma experiência musical imersiva ou aquela consola que supostamente o irá tornar o gamer perfeito. É tentador, não é? Mas, se olharmos com atenção, percebemos que estamos diante de algo muito maior do que simples produtos: estamos a ver signos e significados a serem vendidos.

    Cada imagem publicitária funciona como um signo (Saussure). O significante é o gadget, a foto ou o anúncio, e o significado é a ideia de modernidade, sucesso ou status que queremos transmitir. Roland Barthes chamaria a isto um mito moderno, uma vez que o objeto não é só um telefone ou uns auscultadores, mas um símbolo de que somos pessoas conectadas, descoladas e atualizadas. Muitas vezes, o que parecia uma escolha individual é, na realidade, um desejo criado por estratégias publicitárias invisíveis. Cada campanha bem pensada muda a forma como vemos as coisas, fazendo-nos acreditar que precisamos daquele objeto para ficarmos completos ou aceites socialmente. É propaganda, mas subtil, porque raramente aparece como tal.

    Se pensarmos com os autores da Escola de Frankfurt, percebemos que isto faz parte de uma indústria cultural. Adorno e Horkheimer diriam que os gadgets não são apenas produtos; são mecanismos que transformam consumidores em participantes de um espetáculo contínuo. Cada lançamento cria expectativa, cada review gera ansiedade, cada tendência exige que nos ajustemos para não “ficarmos para trás”. É entretenimento, mas também é controlo: aprendemos a medir o nosso valor pelo que possuímos, e não pelo que fazemos ou somos. Até o design dos produtos, as cores e a publicidade nas redes sociais fazem parte de um dispositivo que molda desejos, comportamentos e identidade.

    No quotidiano, isso significa que cada compra não é só sobre necessidade ou utilidade. É sobre imagem, pertença, aceitação, mas também sobre sentir que estamos a par do que a sociedade define como “moderno” ou “descolado”. Às vezes, vejo um anúncio e penso: será que preciso mesmo disto ou é só o marketing a falar mais alto? Podemos divertir-nos com a tecnologia e, ao mesmo tempo, refletir sobre o que cada objeto realmente significa.

    No fundo, viver neste quotidiano tecnológico é aprender a ler os signos que nos rodeiam, percebendo o que é a imagem e o que é a realidade, e tentando manter a autenticidade mesmo quando tudo parece filtrado. A verdadeira liberdade não está em ter o último modelo ou o objeto mais caro, mas em decidir como nos relacionamos com os signos que carregam e com a cultura que nos envolve. No fim, a nossa vida não se mede pelo que temos, mas por como escolhemos viver, olhar e experienciar o mundo sem nos deixarmos prender pelo espetáculo da publicidade.