É impossível passar um dia sem ver algum tipo de anúncio sobre tecnologia: o novo smartphone que “vai mudar a sua vida”, os headphones que prometem uma experiência musical imersiva ou aquela consola que supostamente o irá tornar o gamer perfeito. É tentador, não é? Mas, se olharmos com atenção, percebemos que estamos diante de algo muito maior do que simples produtos: estamos a ver signos e significados a serem vendidos.
Cada imagem publicitária funciona como um signo (Saussure).
O significante é o gadget, a foto ou o anúncio, e o significado é a ideia de
modernidade, sucesso ou status que queremos transmitir. Roland Barthes chamaria
a isto um mito moderno, uma vez que o objeto não é só um telefone ou uns auscultadores,
mas um símbolo de que somos pessoas conectadas, descoladas e atualizadas.
Muitas vezes, o que parecia uma escolha individual é, na realidade, um desejo
criado por estratégias publicitárias invisíveis. Cada campanha bem pensada muda
a forma como vemos as coisas, fazendo-nos acreditar que precisamos daquele
objeto para ficarmos completos ou aceites socialmente. É propaganda, mas
subtil, porque raramente aparece como tal.
Se pensarmos com os autores da Escola de Frankfurt,
percebemos que isto faz parte de uma indústria cultural. Adorno e Horkheimer
diriam que os gadgets não são apenas produtos; são mecanismos que transformam
consumidores em participantes de um espetáculo contínuo. Cada lançamento cria
expectativa, cada review gera ansiedade, cada tendência exige que nos
ajustemos para não “ficarmos para trás”. É entretenimento, mas também é
controlo: aprendemos a medir o nosso valor pelo que possuímos, e não pelo que
fazemos ou somos. Até o design dos produtos, as cores e a publicidade nas redes
sociais fazem parte de um dispositivo que molda desejos, comportamentos e
identidade.
No quotidiano, isso significa que cada compra não é só sobre
necessidade ou utilidade. É sobre imagem, pertença, aceitação, mas também sobre
sentir que estamos a par do que a sociedade define como “moderno” ou
“descolado”. Às vezes, vejo um anúncio e penso: será que preciso mesmo disto ou
é só o marketing a falar mais alto? Podemos divertir-nos com a tecnologia e, ao
mesmo tempo, refletir sobre o que cada objeto realmente significa.