Nos últimos anos, habituámo-nos a viver rodeados de imagens e notícias que surgem em todos os ecrãs. Enquanto navegamos nas redes sociais, passamos de um vídeo para outro, de um título para outro, e muitas vezes acreditamos, mesmo que por instantes, em algo que depois descobrimos ser falso. Já nos aconteceu ver uma publicação muito partilhada e só mais tarde perceber que era uma notícia inventada ou distorcida., conhecidas como fake news. Essa sensação de termos sido enganados, mesmo que por segundos, faz-nos pensar sobre como conhecemos e interpretamos aquilo que vemos.
Quando tentamos compreender este processo, percebemos que aquilo a que chamamos “realidade” é sempre mediado por signos, ou seja, por palavras, sons e imagens que lhe dão forma. Como explicava Ferdinand de Saussure, a linguagem é composta por signos que unem um significante (a forma, o som ou a imagem) e um significado (a ideia que associamos a essa forma).
Essa ligação é arbitrária, ou seja, não há nada no som “cão” que o ligue naturalmente ao animal. O que faz com que essa palavra represente o animal é apenas um acordo coletivo, uma convenção partilhada entre os falantes de uma língua. Em francês, o mesmo animal é designado por “chien”, e em inglês por “dog”, exemplos que mostram que o som em si não carrega nenhum significado universal. O que une a palavra ao objeto é o consenso social, um sistema simbólico que aprendemos e reproduzimos sem nos apercebermos. É precisamente essa arbitrariedade que permite que a linguagem funcione como um código: flexível, mutável e dependente do contexto cultural em que é usada.
Além disso, a linguagem desenvolve-se de forma linear: as palavras chegam-nos uma de cada vez, como uma sequência de peças que compõem o sentido.
Aristóteles, na obra “Os Céus”, já refletia sobre algo semelhante, a teoria da perceção, ao afirmar que o conhecimento nasce de uma distância entre o sujeito e o objeto. Vemos um cão, e só depois temos a ideia de cão dentro de nós. Para que haja conhecimento, é necessário que o objeto esteja separado, ou seja, que o vejamos à distância, transformado em representação. Também em Saussure, essa separação é essencial: só reconhecemos algo por oposição a outra coisa, porque a linguagem é um sistema de diferenças.
Quando aplicamos esta lógica ao modo como consumimos informação, percebemos o risco. As fake news exploram precisamente essa separação entre a coisa e o seu signo: usam imagens e palavras familiares para representar algo que não existe, de modo a cativar a atenção do público. Um título alarmante ou uma fotografia fora de contexto bastam para criar um efeito de verdade. De acordo com um estudo da Ipsos, 86 % dos utilizadores da internet afirmam já ter sido expostos a notícias falsas, e cerca de 62 % dos conteúdos online contêm informação distorcida. Estes números mostram como o mundo digital intensifica a arbitrariedade dos signos, logo quanto mais rápido circulam, mais se afastam do seu significado original.
Assim, ao partilharmos uma imagem, um vídeo ou uma frase sem confirmar a fonte, tornamo-nos parte de um circuito onde os significantes circulam vazios, repetindo-se até ganharem aparência de verdade. Como observava Saussure, a linguagem não reflete o mundo, mas compõe-no; e como diría Aristóteles, ver e conhecer nunca são o mesmo. A desinformação cresce precisamente nesse intervalo entre o que é mostrado e o que é compreendido.
No fundo, a nossa experiência diária nas redes faz-nos perceber que o ato de ver já não é inocente. Somos, ao mesmo tempo, observadores e construtores daquilo que vemos. Reconhecer essa distância, entre o real e a sua representação, é talvez o primeiro passo para resistir à manipulação simbólica que transforma a informação em ilusão.
Fonte: https://www.ipsos.com/en-us/news-polls/cigi-fake-news-global-epidemic?utm_source=chatgpt.com