Identidade e Memória
Por ter vivido alguns anos da minha vida no México, mais precisamente na Cidade do
México, tive o prazer de ter absorvido um pouco daquela cultura tão fascinante. Por ser
jovem e gostar de pintura, investi algum do meu tempo a passear por museus e locais que
me permitissem perceber aquela cultura tão rica, tão distinta da nossa cultura ocidental.
Ganhei um fascínio pelo movimento muralista, particularmente pelos murais de Diego
Rivera, quando vi pela primeira vez, a reprodução do mural “El hombre controlador del
universo” no Palácio de Bellas Artes da Cidade do México. As pinturas de Rivera, José
Orozco e David Alfaro Siqueiros retratavam a Revolução, a luta de classes e o povo
indígena, reforçando os ideais revolucionários.
Os esplendorosos paineis de Diego Rivera exemplificam como o muralismo reúne passado
e presente, recuperando o legado pré-hispânico e colonial ao mesmo tempo que aborda
problemas contemporâneos.
A dimensão a nível social deste movimento, está justamente no facto de ser arte do povo
para o povo. Os murais não exigem qualquer formação erudita, circulam livremente pelas
praças, escolas, universidades e palácios públicos. Esta arte, ajudou no processo de
reconstrução de identidade de grupo, na recuperação do passado histórico nacional e as
suas tradições. Por outras palavras, ao “fixarem” na parede “recordações” comuns, cenas
da Revolução, da vida indígena, dos trabalhadores, etc..., os murais ajudaram a solidificar
a sociedade.
O impacto do muralismo revê-se na identidade de gerações. Até hoje, as pinturas em
muros e paredes públicos são lugares de memória, elas condensam e simbolizam as
experiências que definem o povo mexicano. Ao evocar traumas e triunfos históricos, esses
murais funcionam como memória viva, renovando continuamente o sentimento de
pertença. Num país marcado por múltiplas “pequenas pátrias” indígenas e regionais, os
murais ofereceram uma narrativa unificadora. Através das imagens “grandes” de Rivera e
dos seus colegas, as pessoas de diferentes origens passaram a partilhar um mesmo
repertório visual, desde o Imperador asteca nos mercados de Tlatelolco até camponeses
do pós-Revolução.
Este movimento é de facto impactante, por ter solidificado a identidade de um país ao
transformar a parede pública numa espécie de “livro visual” de história. A arte de Diego
Rivera e dos demais muralistas permite um diálogo directo com o povo, educando-o e
emocionando-o simultaneamente. Ao celebrar o indígena, o camponês e o operário, e ao
narrar o passado e o presente juntos, estes grandes murais ajudam a construir uma
identidade que vive não apenas nas memórias, mas nas histórias vivas registadas em cada
pincelada das paredes públicas.