A moda como manifestação da arbitrariedade cultural:
Há cerca de duas semanas, comprei
uma saia de aparência clássica numa loja de segunda mão, o que me evocou ao
princípio da arbitrariedade por Saussure. Isto, pois, curiosamente,
fez-me chegar à conclusão de que, há alguns anos atrás, dificilmente teria
escolhido uma peça tão “pouco atual”, “antiquada” e uma saia que, segundo o meu
pensamento na altura, somente as avós seriam capazes de as usar.
A
verdade é que o tecido e o corte se mantêm os mesmos e, durante estes anos, as
únicas coisas que se poderiam ter alterado são o meu olhar e perceção relativamente
a este tipo de saia e, o contexto cultural, algo que redefine continuamente o
que é considerado como “moderno”.
Esta
mudança de perceção, como mencionado acima, fez-me recordar o princípio da
arbitrariedade, este que consiste na relação entre um significante e o
significado, que é completamente arbitrária, ou seja, uma relação onde não
existe uma ligação natural entre ambos. Aplica-se esta reflexão à cultura e,
neste caso em particular, à moda, onde se observa nitidamente que o valor
estético é construído socialmente, sendo o resultado de convenções coletivas
que se transformam consoante o tempo.
A
moda como linguagem visual e simbólica é das manifestações mais evidentes desta
arbitrariedade cultural, onde o mesmo objeto ou peça pode vir a adquirir novos
sentidos mediante o olhar social e mediático que o rodeia.
O
reconhecimento desta arbitrariedade compreende que o gosto não é natural, mas
sim construído, onde consequentemente o ato de vestir pode ser entendido como uma
forma de expressão consciente em que cada escolha traduz não apenas uma
preferência estética, mas também uma tomada de posição face às convenções
culturais. Vestir o que nos faz sentir autênticos, em vez de seguir tendências
impostas, talvez seja, hoje, um dos gestos mais lúcidos de liberdade simbólica.