Recentemente realizou-se o Victoria’s Secret Fashion Show
2025 e, tal como muitas raparigas da minha idade, decidi assistir à
transmissão pela primeira vez. Todo o espetáculo de luzes, a encenação, o som
— constrói uma atmosfera de beleza exageradamente perfeita. Os corpos das
modelos surgem cuidadosamente preparados e coreografados, transformando-se em
símbolos de um ideal inatingível, mas extremamente cobiçado.
O desfile é uma poderosa estratégia de sedução: convence-nos de que, ao comprar o que as modelos usam, poderemos também alcançar a sua perfeição. Os corpos tornam-se mercadorias, não apenas porque exibem lingerie, mas porque os próprios são convertidos em produto e imagem.O valor de uso que a lingerie tem como peça funcional é consumido pelo valor de troca que a lingerie vestida num corpo tem como promessa a beleza, o poder e o desejo.
O corpo feminino é estetizado, fragmentado e objetificado. Tudo é pensado para encobrir as relações sociais reais: o esforço físico e emocional das modelos, a exploração da indústria da moda e a padronização violenta dos corpos.
E eu, espectadora, também sou parte disso. Sinto-me atraída, fascinada, e ao mesmo tempo crítica. O desfile é um ritual de consumo, onde o desejo é fabricado e dirigido. Não se trata apenas de vender roupa, trata-se de vender uma ideia de mulher, de sucesso, de perfeição.
Foi assim que me percebi que o fetichismo da mercadoria não está apenas nas vitrinas. Está nos corpos que desfilam, nos olhos que consomem, nas identidades que se moldam. E talvez o primeiro passo para resistir seja reconhecer que por trás do brilho há estrutura, por trás do desejo há ideologia.