domingo, 9 de novembro de 2025

A Imagem na Era da Velocidade

Vivemos submersos num oceano de imagens, onde estas se tornaram rápidas e descartáveis. Consumimo-las com a mesma voracidade com que as esquecemos. No entanto, esta velocidade da imagem traz consigo uma perda: uma erosão da sua alma. Algo se perde, talvez a alma da imagem, talvez a nossa própria capacidade de ver.

Walter Benjamin, em A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, descreve a “perda da aura” como consequência da possibilidade infinita de reprodução da obra de arte. A aura é a presença única da obra no tempo e no espaço. A reprodução técnica dissolve essa presença: a imagem deixa de ser encontro e torna-se fluxo.

Na atualidade, esta ideia ganha uma nova relevância. O espectador é transformado em consumidor, e a imagem, em mercadoria visual. O tempo da contemplação cede ao tempo da distração. Benjamin já intuía esta passagem ao observar a diferença entre o observador que contempla e o público que consome cinema: o primeiro mergulha na obra; o segundo é bombardeado por estímulos. Hoje, essa relação é levada ao extremo. Benjamin anteviu este fenómeno ao afirmar que “a receção em distração” se tornaria o modo dominante da experiência estética moderna.

John Berger, em Modos de Ver (1972), afirma que “ver precede as palavras”, mas lembra também que a forma como vemos é moldada pelo que sabemos e acreditamos. O nosso olhar é histórico, é aprendido. E nesta época, é um olhar educado pelo mercado. A imagem já não representa o mundo: vende-o. Mostra-nos o que devemos desejar, o que devemos ser, o que devemos possuir. A publicidade, que se infiltra em todos os espaços visuais, transforma o olhar em mercadoria. “A publicidade propõe-nos que transformemos nós próprios em objetos de desejo”, escreve Berger. Assim, o ver torna-se uma forma de consumo. A imagem perde a sua distância sagrada, o seu mistério.

Roland Barthes, em Mitologias, revela o mecanismo subtil através do qual as imagens constroem ideologias que parecem naturais. Cada fotografia publicitária, cada cena televisiva, cada capa de revista é uma narrativa disfarçada: o mito da juventude eterna, do corpo ideal, da felicidade como dever. Estas imagens não nos mostram o real, mas uma versão higienizada e desejável do real. E, tal como acontece com as notícias que repetem a tragédia até à exaustão, o olhar vai-se tornando insensível. Depois de ver tanto, já não vemos nada. A emoção cede ao hábito. O punctum de que Barthes fala em A Câmara Clara, aquele detalhe que nos fere, que nos toca, torna-se raro. No meio do ruído visual, quase esquecemos o que é ser tocado por uma imagem.

Carl Honoré, no seu Elogio à Lentidão, escreve que a pressa é uma forma de fuga: da vida, do presente, de nós próprios. Talvez o mesmo se possa dizer das imagens rápidas que nos cercam. A velocidade com que as consumimos impede-nos de habitá-las. Olhar devagar tornou-se um ato de resistência. Deter o olhar é contrariar a lógica do consumo, é recuperar o tempo da atenção, é restituir à imagem o seu silêncio. Num mundo que mede o valor pela visibilidade, a lentidão é subversiva. A verdadeira contemplação é um gesto político e poético.

Vivemos um tempo em que a imagem é omnipresente e, paradoxalmente, invisível. A saturação visual cria anestesia. Para ver de novo, é preciso reaprender a olhar. Benjamin fala-nos da perda da aura, Barthes da ferida do punctum, Honoré da urgência da lentidão. Entre eles, desenha-se um convite à resistência: resistir ao consumo rápido, à banalização da experiência, à aceleração do olhar.