segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

"Cinema Paradiso"

 "Cinema Paradiso", um filme com um propósito nostálgico e um despertar idealizado entre o espectador e o cinema, retrata uma história que acompanha o crescimento do personagem principal, o seu processo todo entre a relação pessoal da sua vida com o cinema. Desde criança, Salvatore torna-se amigo de Alfredo, já um senhor com experiência a mais de 30 anos, no cinema, que se mantém um mentor para Salvatore. Explorando partes da sua personalidade que estão relacionadas à sua vida profissional e à sua vida pessoal como a saudade, o amor, a solidão e o desejo. 

   No dia 9 de setembro de 2025, fui a um cinema ao ar livre, na Doca da Marinha, com a minha melhor amiga assistir o filme “Cinema Paradiso”. Existiu uma breve discussão sobre o filme, logo após este ter terminado, a partir de pontos subjetivos, existindo uma relação emocional diretamente feita entre o espectador e o filme visto que ela defendeu que interpretou a importância de uma sociedade unida e curiosa perante novas tecnologias, o que, para ela descreve um significado primário do que é o cinema. 

   Explora-se então, a relação e a influência que os medias obtêm sobre a sociedade que os consome, neste caso, a relação espiritual e emocional entre uma sequência de imagens, que constrói uma narrativa, e o espectador que as observa e as contextualiza, encaixando-se numa bola de uma ilusão perante o seu individualismo ao internalizar a representação de experiências pessoais como algo comum e com forma diferente. 

   Segundo um texto de “Dialética do Esclarecimento”, 1947 escrito por Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, o surgimento das novas tecnologias origina com uma nova linha de pensamento para a integrar perante a sociedade, as quais implicam uma maneira de marketing que atribui uma ilusão sobre a individualidade de percepção que o espectador tem perante um objeto.


Qual foi a marca que o filme de 1988 deixou?

   Existe um momento específico do filme, que representa de um modo direto e banal uma sociedade unida, relacionando diversas individualidades em um momento comum entre elas - a observação de um filme. 


    A câmera apontava diretamente para diversos tipos de reações, eram nestas cenas, que se mostrava a diversidade das pessoas que assistiam os filmes nesta sala; pessoas a comerem, amigos a falar, a fumarem, a brincarem, a divisão de classes, guardas a passear pela sala para ter a certeza de que nenhuma criança invadia estas salas e via o filme sem pagar, pessoas a beijarem-se e a darem as mãos, a dormirem e a cantarem. Mantendo o intuito de unificar e aproximar-se do espectador, este momento, acredito eu, que tenha sido a chave para qualquer pessoa que esteja a ver o filme consiga se relacionar a um nível espiritual profundo, demonstrando em como cada pessoa, apesar das suas diferenças consegue se encaixar num contexto de uma sociedade unida. 

   Contudo, os filmes eram censurados, algo que ainda hoje se mantém presente a um determinado nível, mas que na altura, era muito mais claro a sua intervenção. Nestes filmes, apresentados por partes devido aos seus cortes nas fitas, eram desenvolvidas censuras de cenas que representavam intimidade ou idealismos diferentes do que as doutrinas que a igreja defendia. Eram mostradas as reações de frustração e desilusão perante esta sociedade que era deprivada de consumir este tipo de conteúdo, pelo mínimo que seja a sua aparição, demonstrando ao sujeito que observa este conjunto de momentos que existe uma normalidade e uma união entre as pessoas formadas pelas experiências básicas na sua existência num local comum como uma sala de cinema.


   Estas cenas representam a relação perfeita entre as máquinas desenvolvidas para o cinema e a sociedade que a recolhe e a internaliza, apresentando um padrão comum, que realça as individualidades de uma sociedade num contexto unificado. 


    A representação de diversas pessoas numa sala, unidas para assistirem um filme, cria uma ideia de inclusão, que remete diretamente para o observador. Qualquer pessoa é capaz de assistir uma coisa banal, como um filme, deste modo é criado uma relação entre o sistema e o indivíduo. Em formato de imagem são representadas indivíduos diferentes, como algo natural e como uma sociedade unida, a partir do momento em que estão todos numa sala a ver um filme. 

    Neste caso, foi desenvolvido uma ideia de ilusão onde estas individualidades foram padronizadas para encaixar qualquer pessoa com os seus complexos, num contexto onde os medias são consumidos por um conjunto de receptores que indiquem a união destes, não existindo diferenças claras que os distinguem. 

 

    Como mencionado no artigo de Henrique Figueiredo Carneiro, o filme retrata a melancolia e a nostalgia a partir de uma beleza estética e um enredo que remete ao espectador a sua observação subjetiva perante o filme. 


    Quando voltei a perguntar à minha melhor amiga sobre o que achou do filme, a noção que a marcou foi a paixão pelo cinema que cresce no personagem principal perante o acompanhamento do seu amigo Alfredo e a relação entre as personagens, que remete diretamente a algo subjetivo e uma maneira natural do ser humano se identificar e encaixar-se em diversos contextos. Existe aqui um senso de nostalgia e de concretização individual que torna o cinema muito mais aceitável e popular perante a sociedade. Este jogo entre os media e os sujeitos acaba por ser um ciclo codependente, navegando faculdades do subconsciente do ser humano que levam à facilitação da propagação e do consumo destas medias.