terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Olhar Novamente

Diariamente, costumo ir a um café perto de casa. Tomo lá os pequeno-almoços, mas não é comum estar atento ao meu redor – leio um livro ou vejo algum conteúdo nas redes sociais. No entanto, há algum tempo atrás, esqueci-me do meu livro em casa e estava com pouca bateria no meu telemóvel. Nesse dia limitei-me a observar as pessoas e as suas interações.


Tomava um pequeno almoço, talvez não suficientemente nutritivo, quando presenciei uma pequena situação — um daqueles instantes que geralmente passam despercebidos. Atrás do balcão estava uma funcionária nova no café, da minha idade, talvez na casa dos vinte. Um senhor entrou no estabelecimento e pediu um café, analisou a rapariga, e disse num tom ligeiramente impaciente: “Menina, veja lá, não se engane!”. A funcionária, claramente nervosa, serviu o café com as mãos inquietas. 


Após tal, uma senhora mais velha fez o seu pedido e o homem, que ainda bebia o café, endireitou-se, falou mais devagar, quase com reverência: “A senhora quer açúcar?”. Observei o homem a passar o açúcar, a tentar entender o que muda no instante em que olhamos para alguém e inconscientemente decidimos como falar.


Lembrei-me que noutro dia, numa reunião da minha residência, aconteceu algo diferente, mas com uma certa proximidade. Uma colega sugeriu uma ideia e ninguém respondeu, mas, dez minutos depois, um rapaz repetiu exatamente a mesma proposta — e o senhorio aí validou a ideia. Depois disso, a menina sorriu, mas havia um tipo de cansaço nos seus olhos - o tipo que vem de ter aprendido a engolir a injustiça com seriedade.


Tenho andado a pensar nisto — como cada olhar, cada tom de voz e cada gesto carrega uma ideia antiga, algo herdado, algo que repetimos sem perceber.

Como aprendemos a julgar as pessoas — pela idade, pelo gênero, pela cor da pele, pela sexualidade — antes mesmo de sabermos os seus nomes.


Percebi que o mundo está repleto dessas pequenas decisões automáticas, desses reflexos que moldam a forma como nos tratamos. Nem todas vêm da malícia, mas vêm da história, do hábito, do silêncio. Às vezes penso que o verdadeiro progresso não reside em grandes declarações, mas naqueles pequenos momentos de consciência que cabem num gesto: na pausa antes de falar, na escolha de ouvir, na coragem de perceber o que se esconde por trás do automático.


Talvez seja assim que o mundo muda: com a dignidade silenciosa de quem, um dia, decide olhar novamente.