segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

estes olhos que a terra há de comer

muito se pode dizer sobre a falta de observação que sofremos todos hoje em dia, mas quero escrever sobre o que resta dentro de mim. 

sou uma testemunha, não vou negá-lo mais. se soubessem a beleza que vejo todos os dias, não sei o que fazer às vezes. descortinei o nevoeiro e já não há volta a dar. estou condenada, sou feita do universo que se observa a si mesmo. tento identificar quando é que esta mudança ocorreu, mas apercebo-me de que é o culminar das experiências que me constroem. ter crescido num contexto de violência doméstica, ensinou-me cedo sobre a volatilidade das coisas, das pessoas, da natureza e foi aí que concluí que a mutabilidade é a única verdade absoluta e isso trouxe-me a beleza, mesmo que tenha vindo com tudo o resto. 

Berger fala como é o espectador que envergonha o que observa, ora pois bem, eu aceito tudo o que é por aquilo que o é, mesmo que isso possa vir a ser uma falácia nos tempos de hoje. talvez por isso me recuse tentar corrigir o que vejo ou exigir coerência. corrigir implica distanciar-me e colocar-me acima daquilo que observo. aprendi que essa hierarquia é uma ficção perigosa. não me cabe corrigir a natureza, porque no momento em que o tento fazer, alimento a narrativa de que sou um erro. 

reconheço também, quando Berger diz que o olhar nunca é inocente, vem carregado das imagens das nossas experiências, mas não tem de se tornar autoritário. aceitar o que é não significa abdicar do pensamento, mas não torná-lo resistência ao que observamos. ser testemunha é aceitar o lugar instável que não me absolve nem me condena, apenas me torna vigilante. e talvez seja nessa vigília, a única forma de não trair aquilo que me foi dado a ver.

não espero que esta postura seja salvação ou que produza alguma resposta. permanecer atenta é a forma de responsabilidade que desenvolvi.

um dia não vai estar cá ninguém que testemunhe e ainda bem. apesar de correr o risco de soar fatalista, a beleza pode não ser mais contemplada, mas o sofrimento também não. esta terra há de ser vivida seja lá por quem ou o quê, mas sei que pelo menos, dei os meus olhos e que honrei tudo o que vi na profundidade que me conheci.