Ponho-me a pensar: o que é, afinal, uma obra terminada?
Quando cabe ao escultor, ao pintor, ao escritor, ou a qualquer outro criador, decidir que o seu trabalho está finalizado? São questões que surgem na cadeira de Pedra, em reflexões feitas no início das aulas, mas que durante muito tempo não cheguei a aprofundar. Só recentemente, ao trabalhar numa peça da própria cadeira, senti necessidade de colocar este tópico em causa.
Mas quando é que uma obra termina?
Apenas quando o artista decide parar? Ou será que a obra nunca chega realmente a um fim, ficando antes num estado de espera, até um eventual e indefinido retorno? Termina quando deixa de pertencer ao olhar de quem a fez e passa a pertencer ao olhar do outro? Ou quando o artista aceita que já não a controla totalmente? Talvez não seja nenhuma destas hipóteses. Ou talvez sejam todas ao mesmo tempo.
Esta dúvida leva-me inevitavelmente à importância do processo. Para mim, pelo menos, o processo não é apenas um meio para chegar a um resultado, mas parte essencial da própria obra. A matéria guarda marcas, decisões, hesitações, erros e correções. Mesmo quando o artista atribui um significado muito específico ao seu trabalho, esse significado nunca invalida a interpretação de quem observa. A obra, uma vez exposta ao olhar do outro, deixa de ser um território exclusivamente do artista. O sentido deixa de ser totalmente controlável. E talvez seja precisamente nesse momento que algo se conclua, não no objeto em si, mas na relação que se estabelece com ele.
Um exemplo que tenho constantemente presente é o non finito de Michelangelo. O inacabado nas suas esculturas é frequentemente associado à ideia de que apenas Deus pode criar algo perfeito. No entanto, para além dessa leitura, a obra não se fecha sobre si mesma. O inacabado torna visível o processo. Neste sentido, o inacabado não é uma falha nem uma etapa interrompida. É uma escolha. O inacabado é o próprio acabamento. A obra não termina porque atingiu uma forma ideal, mas porque encontrou o seu limite. Um limite imposto pelo corpo, pela matéria, pelo tempo ou pela decisão consciente de parar.
Talvez uma obra esteja terminada quando o artista deixa de tentar dominá-la completamente. Quando aceita aquilo que escapou ao controlo. Quando reconhece que continuar não a tornaria mais verdadeira, apenas diferente. Ou talvez a obra nunca esteja realmente terminada, apenas suficientemente distante para poder existir sem quem a fez.
No fundo, pensar uma obra como terminada é aceitar que ela já não nos pertence totalmente. E talvez seja nesse gesto de afastamento, mais do que num gesto de conclusão, que a obra encontra o seu fim.