segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Modos de (vi)Ver

Há cerca de dois anos tive o prazer de ler o livro Modos de ver de John Berger, um livro que me surpreendeu bastante por fazer apelo ao olhar político sobre a Arte e os objetos visuais que nos rodeiam.

Apesar deste livro ter sido publicado na década de 70, é uma leitura essencial nos dias de hoje pela sua abordagem crítica à forma como as imagens são produzidas e interpretadas. Berger mostra que ver não é um ato neutro ou puramente individual, mas um processo condicionado por múltiplos factores: sociais, culturais e económicos. Esta ideia é particularmente importante num mundo saturado de imagens, onde somos constantemente expostos a fotografias, vídeos e anúncios sem refletirmos forçosamente sobre as intenções e objetivos por detrás destes objetos visuais.


Uma das características que torna este livro atual é a sua análise da relação entre imagens e poder. John Berger explica como a arte, a publicidade e os meios de comunicação reproduzem valores dominantes e reforçam hierarquias sociais. Esta reflexão aplica-se diretamente à sociedade contemporânea, onde a publicidade e os media digitais continuam a moldar desejos, comportamentos e identidades. A capacidade do livro de nos ensinar a questionar quem cria as imagens, para quem são feitas e com que objetivo torna-o uma ferramenta essencial para a literacia visual hoje em dia.


No contexto das redes sociais, os argumentos de Berger tornam-se ainda mais evidentes. Plataformas como Instagram, TikTok e outras baseiam-se quase exclusivamente na imagem e no estilo de vida consumista, incentivando a exposição constante da vida pessoal e o desejo de possuir o desnecessário. As fotografias e vídeos raramente são espontâneos, são selecionados, editados, filtrados e pagos por marcas, criando uma ficção onde o publico segue e deseja sem questionar.


Além disso, as redes sociais reforçam a ideia de que as imagens têm valor social e económico, algo que Berger já discutia em relação à publicidade. Likes, seguidores e visualizações funcionam como formas de validação, que transformam imagem em produto. O livro Modos de Ver continua relevante porque nos ajuda a compreender criticamente este ambiente visual contemporâneo, mostrando que, mesmo com novas tecnologias, as intenções por trás das imagens permanecem quase idênticos.