sábado, 20 de dezembro de 2025

Os bloqueios criativos são um problema pessoal ou cultural?


Ser aluna de Belas-Artes foi algo que nunca pensei que pudesse dizer. 

Claro que era uma hipótese quando pensava no meu futuro, contudo, parecia-me tão distante que nunca acreditei verdadeiramente que aqui chegaria, ao contrário de outras pessoas que tinham Belas-Artes como um objetivo bem definido.

Sabia que, ao chegar aqui, teria de ser criativa, algo que sempre me assombrou, pois, considero que tenho tanto um lado criativo como um lado mais teórico. Não sou daquelas pessoas cem por cento criativas, que parecem encaixar-se naturalmente nesta faculdade e que tanto admiro.

A questão da criatividade, ou da sua falta, acompanha-me diariamente.

No início, encontrava-me mais no papel de observadora do que de criadora. Via todos à minha volta a terem ideias brilhantes, metáforas e significados profundos para tudo o que faziam e comecei a pensar, a certo ponto, que talvez não estivesse no sítio certo.

Os projetos do curso eram feitos mais por obrigação do que por gosto. Com o tempo, fui treinando este “músculo” da criatividade e comecei a desenvolver projetos com maior facilidade. Conseguia encontrar conceitos profundos, tudo parecia fluir. 

Sentia-me, finalmente, uma aluna de Belas-Artes, até que surgiram os bloqueios criativos, algo que não acontece no momento mais oportuno, sobretudo quando os prazos de entrega aproximam-se.

Quando preciso de encontrar conceitos para os projetos e atravesso estas fases de bloqueio criativo, começam a surgir algumas questões:


Como posso ser criativa num sistema que exige produtividade constante?
A falta de criatividade é um problema individual ou cultural?
É possível criar algo novo num mundo em que tudo parece já ter sido criado?


Deparo-me frequentemente, com a pressão de ter que desenvolver vários projetos ao mesmo tempo em que devo dar o meu melhor. Para isso, preciso de encontrar conceitos e ideias suficientemente únicas e criativas para me sentir satisfeita com o resultado final. 

No entanto, muitas vezes tenho a sensação de que os projetos acabam por ser repetitivos, ou variações de conceitos que já explorei anteriormente, o que gera este sentimento de não estar a criar nada inovador para a sociedade atual. Questiono-me se, tudo já foi inventado e se aquilo que hoje consideramos inovador não passa de metamorfoses do já existe, ou se ainda é possível criar algo verdadeiramente novo.

Talvez esta sensação constante de que “tudo já foi feito”, não seja apenas uma insegurança minha, mas uma consequência de vivermos num mundo saturado de conceitos e imagens. Consequentemente, por se dar esta situação, algumas vezes, recorro a plataformas digitais ou conceitos de trabalhos anteriores, para referências visuais.

Walter Benjamin, ajuda a compreender este fenómeno quando fala da reprodutibilidade técnica e da perda da singularidade da obra. Ao criar num contexto em que tudo pode ser copiado e reproduzido, faz com que a criatividade perca a sensação de descoberta e de novidade. 

Aquilo que produzo parece, à partida, já existir de outra forma e a minha dificuldade em criar algo “novo” surge, não da falta de ideias, mas do excesso de imagens e significados que circulam, constantemente, na nossa cultura visual.

Então, percebo que estas fases de falta de criatividade e de procura por conceitos inovadores, não se devem por uma ausência de capacidade criativa pessoal, devem-se ao fato de criar, implicar lidar com uma concorrência visual ilimitada. Cenário onde o surgimento, a repetição e a reprodução de imagens são constantes e condicionam a nossa forma de pensar, imaginar e produzir. 

Deste modo, a criatividade deixa de ser um espaço de descoberta e torna-se um exercício de organização de conceitos aleatórios daquilo que já foi visto.

Ser criativa, atualmente, significa ter que aprender a lidar com esta sensação de que “tudo já existe, o que irei acrescentar?” e aceitar que inovar está em atribuir novas interpretações e sentidos ao que já circula.

Estar neste contexto, permite-me encarar os bloqueios criativos como um exercício adicional de reflexão sobre quais os novos significados que podem surgir, a partir do mesmo ponto de partida, numa cultura visual marcada pela reprodutibilidade. 
Criar passa, então, por resistir à ideia de ser original e principalmente encontrar um espaço para expressão única pessoal.