terça-feira, 16 de dezembro de 2025

olhar

 


Depois de ver Modos de Ver, de John Berger, torna-se difícil ignorar a forma como as imagens moldam a nossa maneira de viver em sociedade. O vídeo não fala apenas de publicidade ou de consumo, mas de algo mais profundo e silencioso: da forma como aprendemos a olhar. Berger lembra-nos que “a maneira como vemos as coisas é afetada pelo que sabemos ou pelo que acreditamos”, e talvez seja precisamente aí que reside a inquietação maior. O nosso olhar já não é inocente. Ele foi educado, moldado e condicionado por uma cultura visual que nos acompanha desde cedo.

Vivemos num tempo em que as imagens nos rodeiam de forma quase constante. Elas ocupam os ecrãs, os espaços públicos, nas redes sociais... Sem nos apercebermos, passam a orientar os nossos desejos, as nossas expectativas e até a forma como medimos o nosso próprio valor. Hoje, enquanto sociedade, estamos quase sempre em contacto com imagens que prometem felicidade, sucesso e plenitude. São imagens sedutoras, cuidadosamente construídas, onde tudo parece harmonioso, belo e possível. No entanto, essa promessa raramente se cumpre. Em vez disso, instala-se uma sensação persistente de insuficiência, como se estivéssemos sempre aquém daquilo que deveríamos ser.

Berger ajuda-nos a compreender que a publicidade não vive do presente. Ela alimenta-se da promessa de um futuro melhor, de uma vida que ainda não chegou. Vivemos, assim, projetados para a frente, acreditando que a “realização” está sempre num próximo passo: no próximo objeto, na próxima conquista, na próxima transformação pessoal. O agora torna-se insuficiente e incompleto. Aquilo que somos e aquilo que temos nunca parecem bastar. Esta lógica cria uma inquietação constante e afeta profundamente a forma como vivemos em conjunto, porque nos coloca numa comparação permanente, não apenas com os outros, mas com idealizações que não são reais, nem alcançáveis.

Enquanto sociedade, aprendemos a olhar para nós próprias como imagens. Observamo-nos de fora, como se estivéssemos sempre sob um olhar invisível. Avaliamos a nossa aparência, o nosso estilo de vida, as nossas escolhas, como se a nossa existência tivesse de ser constantemente validada. Berger afirma que “os homens agem e as mulheres aparecem”, e embora o mundo tenha mudado, essa herança ainda se faz sentir. No feminino, essa fragilidade é ainda mais evidente: o corpo e a identidade continuam a ser territórios de observação, julgamento e comparação. Mesmo quando não há ninguém a olhar, o olhar já foi interiorizado. Passamos a vigiar-nos a nós próprias.

Há uma melancolia neste modo de viver. Uma sensação de cansaço que nasce da tentativa constante de corresponder a imagens que nos ultrapassam. A experiência humana, com todas as suas falhas, pausas e imperfeições, parece não ter lugar num mundo que exige brilho, produtividade e felicidade contínua. Aquilo que não é visível, rápido ou vendável tende a ser esquecido.

Talvez o gesto mais sábio, hoje, seja reaprender a ver. Ver não apenas aquilo que nos é mostrado, mas também aquilo que fica escondido: o cansaço, a dúvida, a vulnerabilidade que fazem parte da nossa condição