O meu interesse pelas revoluções do século XX levou-me repetidamente às imagens da União Soviética. Cartazes, pinturas e murais aparecem hoje em livros, exposições e arquivos digitais. Ao observar a produção visual soviética, é difícil ignorar a diferença entre a pluralidade artística que marcou os primeiros anos do pós revolução e a rigidez formal que se impôs a partir da década de 1930. Essa mudança não somente estilística, mas também no objetivo e função da própria imagem.
Em 1934, no Primeiro Congresso da União dos Escritores Soviéticos, o realismo socialista foi definido como o método oficial da produção artística. Exigia-se uma representação “verdadeira” e “historicamente concreta” da realidade no seu desenvolvimento revolucionário, ligada à educação ideológica dos trabalhadores. O realismo socialista não corresponde a um movimento artístico, mas a uma doutrina cultural imposta pelo Estado, aplicada à literatura, às artes visuais, ao teatro e à música.
Ao contrário do realismo ou do realismo social, que mantinham uma relação crítica com a realidade representada, o realismo socialista estabelece limites formais claros. A arte devia ser proletária, típica, compreensível e partidária. A imagem passa a servir uma narrativa única, orientada para a legitimação do poder. A experimentação formal, que florescera sob Lenine com o construtivismo e outras vanguardas, é progressivamente rejeitada como elitista ou “burguesa”. Trazendo uma onda de uniformização da cultura.
Segundo Adorno, a subordinação da arte a fins externos conduz à perda da sua autonomia crítica. Quando a obra é moldada a partir de exigências ideológicas prévias, a forma deixa de responder a tensões internas e passa a confirmar uma ordem estabelecida. No realismo socialista, a negatividade desaparece. O conflito social, que deveria atravessar a forma, surge resolvido à partida. A imagem não abre espaço à reflexão nem ao questionamento, oferece assim uma resposta a priori.
Numa outra linha de pensamento, Walter Benjamin defendia a politização da arte como resposta à estetização da política. No entanto, a degeneração soviética e as suas influencias na cultura mostra o perigo da arte quando manipulada pelo aparelho estatal. A imagem, concebida como instrumento pedagógico, perde a capacidade de questionamento. A clareza exigida pelo realismo socialista transforma-se em simplificação ideológica. A função política da arte deixa de ser uma de intervenção e passa a ser uma perpetuação das figuras de poder.
O resultado é uma constrição cultural que acompanha a degradação política do período stalinista. A imagem continua a circular amplamente, mas dentro de um horizonte formal estreito. A promessa de uma cultura revolucionária dá lugar a um regime visual que celebra o presente e idealiza o futuro, neutralizando a crítica. A arte já não participa na construção de novas formas de sensibilidade limitando-se a administrar símbolos de poder.
Com uma análise da cultura visual compreende-se como a imagem responde diretamente às condições políticas que a organizam. A imagem permanece sempre num campo de disputa, dialética e indiretamente sensível à maneira como o poder se inscreve no campo visual.