domingo, 21 de dezembro de 2025

A vida de uma pedra de sabão

Nasci da guerra entre a gordura e a soda cáustica. Eles lutaram até à morte. As suas cinzas juntaram-se e pariram-me.

Nasci desta tragédia quente e suja.

Depois dos meus pais morrerem, tive um mês de gestação até me conseguir levantar e ver o meu propósito.

Na minha adolescência conheci a água. Através do nosso amor ela permita-me limpar. Nesta fase de rebeldia eu rejeitei as minhas origens e pari lindas e coloridas bolhas de sabão.

As minhas filhas também tinham a sua rebeldia, fugiam da mãe, pálida e dura, para se tornarem em arcoiris flutuantes que voavam até morrerem no seu sonho. 

Durante muitos anos eu amei a água, ela cegava-me com a sua beleza flutuante enquanto me matava lentamente. 

Perto da minha morte decidi separar-me da água. Quis seguir as minhas origens de pedra e conhecer os metais. 

Na minha velhice conheci o cobre, Ele mostrou-me como por muito que eu fuja da água nunca vou ser imortal como um seixo, A água vai sempre estar dentro de mim e viver significa sempre aproximar-me da morte.

Ao contemplar o meu fim consegui finalmente apenas ser. Deitei-me nos braços do cobre onde adormeci.

Nessa noite sonhei que tinha mais uma filha, mas esta não era uma bolha, era uma linda floresta, de um verde fluorescente que me ofuscava o olhar de tão brilhante. Pisquei e a floresta tinha se metamorfoseado num oceano de um lindo azul turquesa.

Lá estava o meu amor, tantas saudades que tinha sentido de ti, água. 

Enfim, mergulhei.