segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Fetiche em género: as empresas e nós

 Apercebi-me durante um devaneio noturno de uma coisa: falantes de línguas latinas (foquemo-nos apenas no português) têm um incontrolável e quase intrínseco fetiche em atrelar um específico pronome a uma determinada marca e/ou serviço, e não se mostram flexíveis para utilizarem outros com a/o mesma/o; quais os parâmetros que utilizamos na definição dos mesmos? Tomemos Netflix™ como exemplo: 


Com o lançamento do serviço de streaming no ano de 2007, Netflix ™  passou a ser motivo de discussões online nos anos seguintes entre os seus utilizadores em países de língua latina, como o Brasil e Portugal:  “diz-se “a Netflix” ou “o Netflix””, esta era a pergunta mais recorrente; posteriormente, o serviço em suas redes sociais confirmou a suspeita de muitos: “ sou A Netflix”. 


Mas por que havemos de obrigatoriamente chamar  um serviço por um determinado pronome? A resposta aqui não pode ser resumida em poucas linhas, pelo que se divide em outras menores, comecemos pela primeira: 



1- Humanização

É estranho pensar que por trás de cada tweet, por trás de cada post, existe um jovem, um funcionário, que incessantemente passa “a pente fino” toda a internet, sempre se atualizando com o repertório de gírias e expressões do cibermundo, mas isto não nos preocupa, afinal, a Netflix é ‘mãe’, ‘serve cunt’ e dá ‘lacre seguido de fecho’ em tudo aquilo que faz. Sentimos que estamos sempre a ver uma interação entre conhecidos que trocam alcunhas e piadas, mas, na realidade, vemos um comprador e um funcionário, separados por ecrãs e cabos de fibra óptica. 


2- Amiga e companheira.

 “Nenhuma marca é a sua amiga”, se calhar, um dos principais slogans da nossa época, e é verdade. Somos todos compradores de produtos de uma mesma empresa, mas o que acontece quando ela fala como nós? Vejam só, ela mencionou um meme da atualidade! Ela, na sua integridade, deixa de ser uma grande corporação para ser apenas uma amiga à qual prestas queixas de um favor (não é mais um serviço), é demasiado humano para nós, “move-se como humano e fala como humano, deve ser, portanto, um humano.”.


3. Feminino = Inofensividade.

 Já nesta altura não deve ser surpresa que esteja anexado, numa área quase inacessível em nossas mentes, o mais puro estereótipo sobre a feminilidade: inofensividade, a todo o custo. Quando afixamos em nossas mentes a ideia de que um serviço ou empresa é “ela”, pensar que ‘A Netflix ™ é agora a responsável pela maneira desastrosa e nociva com a qual os filmes são escritos e as séries são produzidas ao nível internacional’ não parece tão absurdo quanto realmente é, mas por que seria? “É apenas A Netflix ™, quase como uma rapariga inocente e meramente inconsequente”;  mas e se eu vos disser que ‘O serviço de streaming Netflix ™  é agora o responsável pela maneira desastrosa e nociva com a qual os filmes são escritos e as séries são produzidas ao nível internacional’? Conseguem sentir a diferença, o peso que a vogal “o” atribui à frase? Isto é fruto do ideal arcaico que afirma a mulher como o “ sexo frágil”. 


 Em suma, afirmo que, com o avançar das técnicas de marketing, e a ascensão das redes sociais,  ainda que nos esforcemos para evitar tais sentimentos e ideias, é quase impossível que vejamos uma marca ou serviço apenas como aquilo que é: um fornecedor, um prestador de serviços. Está em nós o desejo de humanizar tudo aquilo que queremos.