segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

A normalização do desrespeito

Há umas semanas, enquanto fazia a minha travessia diária até a universidade, fui abordada por um homem que com poucos segundos de existência no meu campo de visão, conseguiu arruinar totalmente o meu dia.

Esperava a chegada do metro, como faço regularmente, no meu canto, sem demonstrar o mínimo interesse em ter qualquer tipo de interação com alguém à minha volta. No entanto, um sujeito de aproximadamente 60 anos achou-se no direito de interromper a minha paz para me informar através de gestos obscenos e imundos, de caráter sexual, que eu o estaria a provocar de alguma forma. Imediatamente senti me desconfortável e arrependi me de ter saído de casa naquela manhã visto que teria sido mais produtivo estar a dormir do que “queimar neurónios” a tentar entender a lógica por trás destes comportamentos.

 No início tentei ignorar, não foi a primeira vez que experienciei algo deste género, então já devia ter aceitado que ser mulher implica estas coisas. Mas, desta vez, não consegui e tentei arranjar uma justificação para o injustificável. Durante alguns minutos senti culpa e arrependimento, pois nesse dia decidi usar uma saia, algo que não usava há algum tempo, por não me sentir suficientemente confiante para tal. Antes de sair de casa, encontrava-me feliz pois finalmente me sentira confortável para usar aquela peça de roupa.  No entanto, após aquela interação degradante, a felicidade que referi anteriormente, transformou-se em algo diferente: Primeiro, em culpa, mas mais tarde em raiva, quando me apercebi que não fazia sentido culpar me pela dificuldade que alguns homens apresentam, em olhar para as mulheres como pessoas.

Infelizmente, a experiência que referi, é partilhada por quase todas as mulheres.  Começou quando tinha 14 anos e desde então consigo enumerar, infelizmente, diversas situações deste género. Quando contava a alguém, apenas diziam para ignorar, aceitar como um elogio ou questionavam o que tinha vestido. Isto só demonstra o quão normalizado e enraizado é o assédio e como muitos homens desumanizam diariamente mulheres, que, para eles, não passam de objetos aos quais se sentem superiores. 

Obviamente, não estou a generalizar e a acusar de modo algum todos os homens, no entanto, é um problema que ainda existe na nossa sociedade e que afeta muitas mulheres, de todas as idades, no seu dia a dia visto que não é justo, e não devia ser normal, o medo e desconfiança que sentimos sempre que saímos à rua.