terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Solidão

 Há uns dias atrás estava a conversar com um amigo que vive na mesma residência universitária que eu, que me contou que antes de 2020, antes da pandemia começar, existia muito mais um senso de comunidade entre os residentes, comparando com agora. Isto deu-me a pensar sobre o efeito da pandemia no comportamento social das pessoas da minha idade.

 Eu lembro-me que meu primeiro ano da faculdade, que era também o primeiro ano em que tínhamos de estar em isolamento, em que as aulas passaram a ser exclusivamente online. Isto dificulta o processo de interagir e colaborar com outros, visto que não nos estamos a ver em pessoa. Desde então, caso percamos uma aula, basta assistir uma gravação da mesma. E caso seja preciso um grupo reunir-se para um projeto, simplesmente marcamos um horário no zoom.

 Esta tendência de adaptar a interação social em pessoa de maneira a ocorrer á distância usando novas tecnologias já tem estado a acontecer há mais tempo, sendo apenas aumentada pela necessidade da pandemia. Á medida que a tecnologia vai evoluindo, vamos ganhando cada vez mais possibilidades de evitar interação social. Com tecnologias de comunicação á distância, não precisamos de nos encontrar pessoalmente com os nossos amigos. Com o teletrabalho, nem é preciso sair de casa para ir trabalhar. E com a possibilidade de fazer compras online, também não precisamos de sair de casa para conseguirmos bens essenciais. Para entretenimento, também possuímos plataformas com horas suficientes de conteúdo para estarmos sempre ocupados. 

 Não só para os jovens, a solidão não é conceito novo para as pessoas de idade pós-reforma. Grande parte das relações que vamos adquirindo ao longo da nossa vida são feitas em espaços de atendimento frequente, como a escola e o trabalho. Nestes ambientes é fácil conhecer pessoas e manter amizades, visto que as vemos quase todos os dias, e eventualmente temos de colaborar com elas. Mas a falta de ambientes como estes, em conjunto com a alta mortalidade de pessoas nesta faixa etária torna difícil manter relações com outros. 

 Isto tem levado a uma redução da nossa qualidade de vida devido ao aumento da solidão da população, visto que possuímos uma necessidade por comunidade, mas não um incentivo para a obter. Esta sensação de solidão já vem desde o início da raça humana, como uma forma de evolução para garantir que não tenhamos nenhum comportamento que nos exclua socialmente, e consequentemente reduza as nossas chances de sobrevivência.