Reflexão matinal sobre um excerto d’A sociedade do espetáculo de Guy Debord
A correr por dentro das ruas de Arroios que nunca param quietas, olho de relance para o meu pulso esquerdo – estou atrasado. Podia jurar que as sete horas de sono iam chegar, e que ia acordar com o despertador, mas enfim, quem mais jura mais mente, e quem não mente são os ponteiros que ditam o horário da minha aula que já começou. A azáfama do quotidiano não me dá descanso nunca, nem quando o sol da manhã enregela os ossos nem quando dança sozinha a lua, é sempre a mesma correria, é apanhar o metro e perder-me no som intenso das rodas contra os carris, de manhã à noite. No fundo, acordo e vivo nas trincheiras desta guerra contra o relógio, contra o tempo numa sociedade de classes. Já dizia o Marx, “O tempo é tudo, o homem não é nada; é quando muito a carcaça do tempo”. Reflito, e de facto o tempo que corria no mundo da natureza é muito diferente daquele que corre no mundo dos homens. O tempo cíclico das estações do ano, dos dias e das noites, do calor e do frio, foi substituído por um tempo irreversível. Parece que, nalgum momento da história, o nascimento do poder político transformou o tempo numa seta orientada, numa sucessão de poderes, mas que pertence apenas à classe dominante. “Só aqueles que não trabalham vivem”. Era o tempo dos faraós e dos imperadores, dos reis e das dinastias, possuidores do monopólio da imortalidade. A vitória da burguesia e o desenvolvimento do capitalismo vieram consumar esta imposição a todos os Homens, unificando o tempo irreversível num tempo-mercadoria ao serviço do mercado mundial, autêntica máquina apropriadora de horas, minutos e segundos. Mas o clímax desta estória vivemo-lo nós no presente – a machadada final é realizada pelo espetáculo da sociedade pós-industrial, onde as imagens e as representações triunfam para serem contempladas. Hoje, vigora um outro aspeto complementar do tempo como produto de consumo, um tempo que regressa à vida quotidiana sobre a forma de um tempo pseudocíclico. É o tempo do acordar, levantar, trabalhar, comer, dormir, repetir; é o tempo da longa jornada em nome da brecha de lazer ao fim do dia, em frente à televisão; é o tempo da exploração das 40 horas em nome daquele tão esperado fim de semana; é o tempo dos 230 dias fechado no escritório em nome da semaninha passada na praia da Comporta. O trabalhador foi violentamente expropriado do seu tempo, mas desfruta-o na condição de consumidor “livre”, vivendo-o ilusoriamente nos falsos momentos de ócio. A realidade das suas vivências não tem qualquer relação com o “tempo irreversível oficial da sociedade”, mas está também em “oposição direta com o ritmo pseudocíclico do subproduto consumível deste tempo”. Ao aperceber-me desta contradição fundamental, deixo a frustração invadir o meu corpo morto, lançado nas mãos do espetáculo mercantil de marionetas toscas – mas lá no fundo, permanece a vontade de lutar. “Na reivindicação de viver o tempo histórico que ele faz, o proletariado encontra o simples centro inesquecível do seu projeto revolucionário”. Ainda há muito que fazer. Mas por agora chega de pensar, que a pensar morreu o burro, e ainda tenho tanto caminho que fazer é melhor despachar-me, enfim, chego tarde mas hei de chegar, espero eu.
(Todas as citações vêm dos capítulos 5 e 6 d’A sociedade do espetáculo de Debord)