terça-feira, 20 de dezembro de 2022

O cultivo do estereótipo

Um dia, quando conversava com a minha avó, apercebi-me como certas ideias realmente hipócritas se encontram entranhadas na nossa sociedade. Surgiu como tema a relacionamento amoroso do meu irmão. A minha avó falava com indignação sobre o facto de a namorada do seu neto não saber a distinção entre um bife de vaca e um bife de frango, e como expectável, os seus dotes culinários também serem reduzidos. Eu, desde nova, fui incentivada a estar presente na cozinha para aprender com as mulheres da minha família, porém, o mesmo não era esperável do meu irmão. Sendo que ele possui tanto, ou ainda menos, conhecimento culinário que a sua namorada. Quando relembrei a minha avó dessa realidade ela apenas afirmou: “Mas ela é uma mulher”.

No meu meio familiar as tarefas de casa encontram-se relativamente bem distribuídas entre os meus pais. Tanto a minha mãe como o meu pai cozinham, lavam roupa, passam a ferro, limpam. Porém, por alguma razão que eu não compreendo, essas tarefas todas foram me impingidas desde criança enquanto o meu irmão brincava. Por consequência, sou uma pessoa desenrascada e independente que detesta pedir ajuda, já o meu irmão é exatamente o oposto.

Todas as competências anteriormente referidas são, a meu ver, cruciais para qualquer pessoa independentemente do sexo. Sendo que eu não me queixo por ser ensinada a fazer qualquer uma destas tarefas, pelo contrário, eu sinto-me grata por conseguir ter uma vida independente no que diz respeito a ensinamentos provenientes das interações com as gerações mais antigas da minha família.

Mas eu não era encorajada a fazer todo o tipo de tarefas. Tudo o que envolvia trabalhos fora das quatro paredes, por exemplo: ajudar na horta, cortar a relva, carregar lenha, etc. eram tarefas nas quais eu era ativamente desencorajada a participar por razões que desde sempre questionei.

Lembro-me de em criança querer cortar a relva. Observava o meu pai com um certo fascínio para o qual não tenho explicação. A maneira como se movimentava com o corta-relva com perícia, certificando-se que não passava no mesmo sítio duas vezes. Ele tentava ensinar o meu irmão a fazê-lo, este queixava-se e mostrava grande desinteresse na atividade, enquanto eu tentava aproveitar as chances que tinha para, pelo menos, andar em linha reta com a máquina. “És demasiado pequena para a máquina”, “Não tens força para ligar o motor”, “Não consegues carregar o cesto com a relva cortada”, “Nem consegues empurrar o corta-relva”, estas são frases que fiquei a conhecer bem, frases que me levaram a ir desistindo da ideia com o passar dos anos. Agora que tenho a certeza que seria capaz de manusear bem a máquina, o meu interesse na atividade é praticamente nulo. Porém, questiono-me se tivesse sido encorajada, se tivesse tido a oportunidade de participar nesta e noutras tarefas semelhantes, se seria uma pessoa com hábitos diferentes dos que tenho hoje.

Penso que, independentemente do género, tanto eu como o meu irmão deveríamos ter sido encorajados a participar em todas as atividades que já referi. Acredito que, certamente, isso não faria com que tivéssemos as mesmas competências, porém sinto que pelo menos estaríamos num pé de igualdade. E que, no final de contas, não teria de ser eu encarregada de ensinar o meu irmão mais velho a cozinhar.