quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

(un)real

Todos os dias uso a Internet sem falta. Há quem diga que é um vício e um problema das gerações mais jovens, mas eu não penso assim. Estar separada da rede digital não me faz mal, nem me deixa com sintomas de privação, no entanto negar a presença e importância deste mundo virtual é estar cego às mudanças socioculturais.

Com esta presença diária pergunto-me quem sou. Se sou o meu corpo, a minha voz, o meu cheiro, a minha personalidade. Se isso me define. Será que sou o meu nome ou a minha fisicalidade? Ou até mesmo a minha personalidade, como eu trato os outros e ajo num espaço. Sei que isto tudo tem importância numa sociedade criada à base de interação e comunicação. Não há volta a dar, faz parte da biologia do ser humano. Mas pergunto-me o que é que faz ser eu mesma. Qual é o traço ou característica definitiva na construção da minha essência. Talvez até seja um conjunto de tudo o que mencionei – ou até mais.

Então e quem sou eu online? Sou mais eu neste mundo digital ou isso é apenas uma imagem falsificada que criei para os outros observarem? É uma imagem daquilo que eu gostaria de ser na vida real? Nas infinitas redes sociais sinto-me mais livre que no mundo real, encontro mais pessoas com os mesmos gostos que eu e partilho aquilo de mim que quero partilhar. Eu não escolhi o meu nome pessoal, mas escolhi o username que utilizo online. Posso explorar sobre inúmeros assuntos sem nunca dar a cara – nem ser julgada. Ser alguém completamente distinta de mim, mas com quem me identifique mais, é fácil. É fácil divertir-me na internet. É fácil.

No entanto será que isso corresponde a quem eu sou? As ações todas que faço online – os likes, tweets, retweets, posts, comments, upvotes, uploads, swipes – fui mesmo eu que as fiz? A imagem que partilho de mim nas redes sociais é quem eu realmente sou? Não sei. Tudo o que examino e publico é partilhado por mim como um filtro pré-publicação. Sou a editora de mim mesma. Na vida real isto não existe. Controlo as minhas ações, mas há um limite daquilo que consigo fazer. A perceção que as pessoas têm de mim está geralmente fora do meu controlo.

Penso que eu sou eu que fala presencialmente nas aulas e eu sou eu que escreve aqui estas palavras num blog digital. Nenhum é mais que o outro. Cada faceta revela coisas diferentes de mim, oferecendo-me condicionantes especiais para tal acontecer. Talvez um dia a nossa tridimensionalidade deixe de existir, tornando-nos seres omnipresentes digitais. Não sei se mesmo aí vou considerar isso como sendo puramente eu.