Nos dias de hoje é evidente que existe uma grande dependência da tecnologia, especialmente no que toca aos smartphones. Facilmente reparamos que para muita gente esta dependência se tornou num vício, por tantos motivos, sejam eles as redes sociais ou as compras online, alimentadas pelo crescente consumismo desta geração.
É possível encontrar uma relação entre a situação atual e “O
Trabalho Alienado” de Karl Marx, especialmente no que toca à falta de
controlo que as pessoas têm hoje sobre as suas vidas, devido a esta “servidão” ao
mundo tecnológico. Marx afirma que “O trabalhador põe a sua vida no
objeto; porém, agora ela já não lhe pertence a ele, mas ao objeto.”, e
é verdade que esta afirmação se foca num contexto diferente, em que o produto
do trabalho do trabalhador estabelece um domínio sobre a sua vida, mas esta
frase é também uma representação aplicável a esta dependência que hoje até consideramos
“normal”. É verdade que os tempos mudam e há milhares de anos que temos vindo a
evoluir e a adaptarmo-nos a novas realidades, mas a meu ver, estas
circunstâncias dão impressão de que nos encontramos num cenário excessivo.
Recentemente tem-se vindo a gerar uma grande polémica (especialmente
nas redes sociais), e em alguns casos pânico acerca do 5G e da sua
implementação. Especula-se sobre os possíveis riscos desta recente tecnologia,
como cancro do cérebro, leucemia, dores de cabeça, depressão e até
pensamentos suicidas, devido às frequências mais elevadas das redes 5G e ao
aumento do número de antenas que esta tecnologia requer. Apesar desta onda de
pânico, o que é certo é que são poucas as evidências que realmente comprovem
estes riscos, e as radiações emitidas pelo 5G encontram-se dentro dos limites
de exposição a radiação definidos pela OMS.
Mas
porque de repente se tornou tão preocupante esta situação? Tanta gente parece
estar colada 24 horas por dia ao telemóvel, que sujeita o ser humano a uma
radiação muito superior e a uma distância muito menor do que uma antena de rede
móvel 5G instalada a centenas de metros. A verdade, é que com esta dependência
este é um facto que muitos desconhecem ou ignoram porque preferem manter-se
submissos ao poder deste objeto. Esta pode ser vista como uma das forças
antagónicas exercidas pelo objeto através do poder que lhe foi atribuído, e que
Marx refere no seu livro “Manuscritos Económico-Filosóficos”: “(…) e se
torna um poder autónomo em oposição a ele; que a vida que deu ao objeto se
torna uma força hostil e antagónica.”
Parece não haver uma solução à vista para esta situação
(embora talvez a maioria não a procure) e nem mesmo um doseamento deste
excesso, mas este, é um vício como qualquer outro e que parece ter vindo para
ficar. É mais um daqueles momentos da história em que o “(…) o
trabalhador torna-se servo do objeto (…)” (Karl Marx), e esta pode ser
considerada uma forma de alienação dos tempos modernos, porque o domínio que
este objeto que é o smartphone estabelece sobre nós se tornou uma necessidade,
algo tão ou mais importante como as mais simples necessidades da nossa
natureza, como comer ou beber. Arrisco-me a dizer que para a maioria das
pessoas, um dos primeiros passos da rotina do dia ao acordar, é olhar para o
telemóvel e ver se há algo de novo ou interessante para nos distrair do que
realmente é importante: o mundo real. Assim como se sente a fome e a sede,
também agora se sente esta carência de voltar a olhar para o ecrã, porque
rapidamente se tem vindo a transformar em algo essencial e indispensável para a
vida de cada um de nós, “Deste modo o objeto capacita-o para existir (…)”(Karl
Marx), assim como o objeto do produto de trabalho se torna algo absolutamente
fundamental para a existência de um trabalhador.