quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Evidências modernas do poder ideológico do homem na representação feminina



A pouco tempo uma amiga sugeriu assistirmos ao filme Jennifer’s Body (2009), assim que ela citou o título da obra, recordei-me instantaneamente da sua propaganda, e rapidamente rejeitei a proposta. Tive contacto com esse filme desde criança, pois se tratava de um dos cartazes que havia na montra da locadora que costumava frequentar. Lembro-me que, mesmo tendo 9 anos, assumi que o conteúdo do filme provavelmente era sexual. Enquanto crescia, o cartaz continuou lá, mas às vezes era mudado de sítio, apesar disso sempre encontrava-me a olhar para ele, e sempre pelo mesmo motivo, a imagem sexuada da atriz Megan Fox (1986)

    A minha forte resposta trouxe confusão à minha amiga, que já tinha assistido o filme e em seguida relatou-me que ele não expõe o assunto que o seu cartaz insinuava. Muito convencimento não foi necessário, então naquela mesma noite terminamos de vê-lo. A experiência trouxe um enorme esclarecimento para muitos pensamentos que tive durante meu desenvolvimento, não só do filme, mas também da minha própria imagem, e da representação visual das mulheres. Os mesmos pensamentos que surgiram vindos da repulsa e do contacto contínuo com o cartaz, foram as temáticas criticadas neste filme. Gostava de ter assistido o filme quando adolescente, mas infelizmente o público que se sente atraído pela imagem veiculada, é o objeto da crítica da diretora, e a audiência que o filme pretendia alcançar frequentemente rejeita o chamado da campanha.

Consequentemente, a crítica e público reprovaram o longa-metragem, que foi escrito pela roteirista Brook Maurio (1978), mais conhecida com o pseudônimo Diablo Cody, que no ano anterior ganhou o Oscar de melhor roteiro original com Juno (2007).  Muita dessa rejeição foi associada à escolha de representação da imagem da feminina pela equipa de marketing, que apelou ao público masculino, que ao assistir viu-se sendo alvo de uma crítica.

Como o episódio 2 da série Ways of Seeing (BBC, 1972) evidencia, a representação da imagem feminina é, em grande parte, feita para ser observada pelo público masculno. Essa dominância da cultura visual, também é um reflexo da cultura ter surgido da tentativa do homem de ”...escapar do destino da espécie...”, como Simone de Beauvoir (1908) aponta no seu livro O Segundo Sexo, Volume I (1949). Portando, enquanto o individuo do sexo masculino se afasta da natureza animal, a mulher foi limitada a utilidade do seu corpo, ou seja é restringida ao seu papel natural. Dessa maneira, o homem cria os valores humanos a partir do seu ponto de vista, e durante a evolução da espécie humana, a mulher foi sujeita a reconhecer-se com valores sociais masculinos, restrita a enxergar a si própria pelos os olhos do sexo oposto, e condicionada desde de cedo a viver, com o que acredito ser a primeira, “falsa consciência” provocada pela ideologia dominante. 

Entretanto, o pensamento da mulher, cada vez mais se separa da ideologia masculina, com a ajuda de tentativas de expor a condição de submissão da mulher, como Simone de Beauvoir (1908) em seus livros e Diablo Cody na sua comédia de terror. De forma trágica, o uso de uma representação visual mais masculina da imagem feminina, trouxe ao público masculino o posto de expectante central. Logo, a repercussão inicial do filme foi limitada, contudo atualmente o que ofuscou-o aprofundou seu impacto, não só  é um exemplo próprio do que pretendia manifestar, mas também demonstra que a objetificação da mulher, e do seu corpo, não se limita à produtos visuais masculinos.