
Os últimos 20 anos viram enormes mudanças na maneira como comunicamos - mudanças conduzidas principalmente pelos avanços tecnológicos.
A mudança que se deu com a introdução dos smartphones foi paradigmal. O modo como consumimos cultura, e como esta se tornou maioritariamente visual deve-se quase inteiramente a esta invenção. A fácil acessibilidade para comunicar permite que o façamos a qualquer momento, em qualquer lugar.
A internet, enquanto ferramenta, tem potencial que continua a desvendar-se: a facilidade em comunicar ajuda as melhores e as priores causas, e a democratização da partilha teve consequências boas e más a vários níveis. Mas, a introdução das redes sociais na sociedade, e essa facilidade de partilha de (des)informação, foi, na minha opinião, um dos eventos mais transformativos dos tempos modernos.
A possibilidade de partilha de informação instantaneamente fez com que a cultura se tornasse primariamente visual, pois chega a nós através de ecrãs, e muito mais descartável, por conta desse ritmo acelerado com que é consumida.
Sendo da natureza humana procurar sempre o próximo pico de dopamina, a busca do prazer e do conforto, ter uma ferramenta capaz de trazer infinitas fontes disso mesmo é... viciante.
Algo que a maior parte das redes sociais têm em comum é que o usuário, para poder participar, cria uma reprodução ou versão digital de si mesmo. A criação de uma personagem pela mão de quem julga sê-la mudou profundamente a natureza social humana e a cultura visual.
A obsessão do ser humano consigo mesmo, a vaidade e futilidade, têm vindo a ser temas de ambos artistas e cientistas ao longo dos tempos, e o constante jogo de espelhos que jogamos ao interagirmos através destas redes sociais está a exacerbar esses traços de carácter. Mas não afeta somente uma mudança no caráter ou modos como interagimos, afeta também as nossas crenças, modos de ver o mundo, e consequentemente, os modos como agimos no mundo. As nossas crenças são a força motora da ação, e uma perspetiva narcisista do mundo cria um mundo muito hostil.
A ideologia do consumo material advém de uma cultura predominantemente visual, durante um período do capitalismo industrial avançado, onde as discrepâncias na distribuição da riqueza são maiores do que nunca.
Os valores desta sociedade são geralmente superficiais, tendo como preocupação principal a "ótica" de todos os momentos, mais do que o que eles são ou como se fazem sentir. A conquista material é um símbolo de estatuto, e sendo o cuidado da imagem e as aparências algo ao qual atribuímos valor e poder, esta busca incessante por novas metas leva ao consumo desnecessário, que por sua vez alimenta maiores problemas socioeconómicos e ambientais.
Estaremos tão viciados com a imagem de um espelho que podemos curar e decorar à nossa maneira ideal que comprometemos os nossos valores? Será que o nível de alienação é tal que deixamos de ter escolha?
Pode não haver consumo ético dentro do capitalismo, mas a compaixão ainda é possível. Talvez esteja aí o início da verdadeira revolução.